A vida eterna do Pequeno Papa Sonhos.

Que ousadia era comprar um livro, daqueles cheio de texto, para um bebê. Afinal, aquela coisinha piquitica só iria rasgar, talvez rabiscar, com toda a certeza babar nas delicadas páginas impressas em couchè.

Mas a mamãe deixou que o marido implicasse, que a sogra bufasse, que outros olhos revirassem e, naquela noite, leu a história para a coisinha piquitica — que podia não entender nenhuma das vírgulas ali colocadas, mas acabou sonhando com aquela voz doce e suas palavras.

Por dias a fio, ficaram gravadas em sua imaginação em crescimento as ilustrações quase vivas do Pequeno Papa Sonhos (um simpático monstrinho que devorava os pesadelos mais medonhos). Na hora de dormir, de tomar banho, de pegar a chupeta, construía memórias infantis sobre os trechos dos livros, as figuras, as caretas.

Desde a primeira leiturinha, mesmo que nenhum be-a-bá fizesse sentido, a coisinha piquitica dormia mais calma, serena, carregando sempre um sorriso. Foi como se o Pequeno Papa Sonhos tivesse fugido do papel, se esgueirado pela orelhinha e sussurrasse, da noite ao dia, que por ali nenhum pesadelo passaria.

Depois daquela, vieram outras narrativas e mais vozes cantadas sob o cobertor. Não foi recomendação médica, autoajuda ou simpatia que fizeram a mamãe comprar tantos livros: foi amor. Um desejo pelas palavras que passou à nova geração, construiu mais uma leitora, ampliou o cenário, protegido para sempre por um personagem dos sonhos que, naquele quarto, já não era imaginário.