Coreografia Imaginária.

Ela deslizou os dedos pelas teclas, preto no branco, posicionando as digitais para o início da dança. Foi do mi ao sol e girou até o sustenido, em silêncio, como em um salto perfeitamente executado.

Passar as tardes na loja de instrumentos do pai era a sua atividade favorita. O único lugar onde ela podia fazer o que quisesse, dançar e brincar o quanto pudesse — com uma única regra: nunca fazer barulho.

Enquanto as outras mocinhas e rapazes da sua idade estavam nas sorveterias, shoppings ou cinemas, ela deslizava entre oboés, trombones e violinos. Seus melhores amigos eram um violão, encostado na parede com uma postura impecável, e o saxofone da vitrine, em sua base giratória que originava movimentos elegantes e dava vida à fachada vermelho-escuro.

A menina não se importava com os questionamentos da mãe, ou com as fofocas das vizinhas, nem com as pessoas que morriam de vontade de dar pitaco. Ignorava os sussurros de “olha lá, vai passar a tarde na loja outra vez”, virava os olhos para as burburinhos da escola e sorria internamente com os olhares curiosos dos clientes. Tudo estava bem, do jeito que deveria ser. Ela aprendeu a ser só para vivenciar os instrumentos com a mesma alegria que um patins tem ao rodopiar.

Se o mundo deixasse, ficaria para sempre naquela competição de acordes soturnos. Apenas ela, a respiração compassada e os ponteiros estáticos do relógio. O seu espetáculo particular, silencioso, perfeito.

Em meio aos devaneios, tombou em um cavaquinho. Alguns lá-ré-dó sem sentido ecoaram pela loja e o pai, sentado na banqueta atrás do caixa, lançou um olhar de reprovação. A menina arrumou-se em partituras, voltou ao treino imaginário e reiniciou a coreografia entre teclas e cordas, como faz todos os dias, até que os aplausos os separem.