O Falso Marinheiro.

Meus pés batiam conforme as horas passavam. Os sons do sapato no piso complementavam a dança dos ponteiros. Tic. Tac. Pan. Tic. Tac. Pan. Eu mal podia esperar para ir embora; largar as trenas, as madeiras e o serrote. Não me entendam mal, eu adoro marcenaria. Cresci vendo meu pai construir móveis e todo artigo de madeira imaginável, segui a mesma profissão e me orgulho disso. Mas voltar para casa era o ápice do meu dia. Eu encontraria minha neta, Lilian, a minha preciosidade; eu abriria um sorriso e receberia um abraço apertado em troca; a pegaria no colo, sentaria na minha cadeira de balanço e contaria para ela alguma história sobre o meu dia. Não o dia que eu de fato tive. Mas o que ela queria ouvir.

Minha neta é fascinada por histórias de marinheiro e, todas as noites, eu finjo ser um. Falo sobre monstros marinhos, piratas, ilhas exóticas e sobre como passei o dia pescando algum polvo gigante. A mãe de Lilian e minha esposa só reviram os olhos, mas eu ignoro essa reprovação da parte delas. Gosto de contar essas histórias. Não sei de onde surgiu o amor de Lilian pelos oceanos, mas aquilo era forte e eu, mais do que tudo, queria fazer parte desse mundo. Virei um ás do mundo marítimo por ela. Não passava de imaginação, mas aqueles olhinhos tão vidrados e entusiasmados me impediam de parar, de falar que não era verdade. Eu virei um herói real que só contava mentiras. Minha rotina era estar na marcenaria durante o dia e, à noite, ser um corajoso velho do mar. Até o dia em que meus pigarros e tosses, para mim tão comuns, se transformaram em algo muito maior.

A serragem e a cola da marcenaria haviam, praticamente, destruído meus pulmões. Agora, eu estou destinado a fazer inalações, tomar remédios e passar longe de qualquer umidade. Estamos em 1997 e, aos sessenta e cinco anos, o melhor que posso fazer é seguir a orientação dos médicos. Perdi a conta de quantas vezes já suspirei depois de receber esse diagnóstico. Não poderia trabalhar e passaria a maior parte do dia tendo que cuidar da saúde, sem tempo para mais nada. Meu coração e mente estão divididos entre os dilemas que não pedi: minha família dependia do trabalho que eu tinha. E o sorriso da minha neta dependia do trabalho que ela pensava que eu tinha.

Estava concentrado nisso enquanto Lilian me olhava, pensativa. O que eu faria sem o brilho que emanava dela a cada menção ao oceano? As histórias precisavam continuar; o herói precisava continuar. Foi quando um estalo me ocorreu.

Eu levantei e fui até o quarto. Em uma das gavetas da cômoda, escondido embaixo de algumas revistas antigas, estava um envelope com economias, que eu guardava desde que me mudei para Curitiba, há uns quarenta anos. Separei uma pequena parte dele e guardei no bolso do casaco. O restante, deixei no envelope, com uma carta endereçada à minha esposa.

- Vovô, o que está fazendo?

Eu separei duas camisas xadrez e joguei em uma mala de viagem. Passei por minha neta sem responder a pergunta. Entrei em seu quarto e peguei algumas roupas. Ela me encarava, encostada na porta.

- Querida, eu preciso contar uma coisa. — seus olhos estavam marejados, como se esperasse uma notícia ruim. — Nós vamos morar na praia. E vamos viver algumas histórias de marinheiro.

Seu semblante mudou e ela sorriu. Por um momento, eu esqueci das inalações, remédios e de todos os dilemas. Eu finalmente seria um marinheiro. E Lilian teria orgulho de mim. Tracei, sem mais nem menos, um destino para nós dois. Se eu ia parar de trabalhar e morrer, ia fazer isso vendo minha neta sorrir.

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