Relatório Matinal.

Jogava sozinho, todas as manhãs. Não havia frio ou sol escaldante que o parasse; nos dias de chuva, afastava todos os móveis da sala e aproveitava a parede branca e vazia. Sua amiga era a raquete, sua atenção era da pequena bola verde.

Ouvira cochichos, repreensões. Fora chamado de estranho, caduco, solitário. Não que o último não fosse verdade, pensava. Depois dela, só sentia-se mais e mais vazio — assim como a quadra e a parede. Sua esposa tinha sido uma tenista profissional; vivia para amar o esporte, e ele vivia para amá-la.

Quando a morte levou seu espírito, levou também o respirar dele. E então, o esporte que era seu concorrente e ciúme, virou seu companheiro, sua lembrança, seu choro silencioso e imperceptível de todas as manhãs.


Essa história faz parte da coleção de crônicas Cenas da Janela, que reúne um pouco do que eu vejo (e imagino) nos ônibus, metrôs e outros vidros por aí.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.