4 coisas que você deve saber antes de largar tudo (e mudar para Barcelona)

Eu não sabia o que era um “ano sabático” até ter o meu. Ou melhor, até depois de ele ter acabado porque, para mim, o ano em que larguei tudo, foi isso: o ano em que larguei tudo.
Agora é um clássico da vida contemporânea. Pedir um tempo no trabalho, um hiato na rotina, dar adeus à família e amigos, e aventurar-se em outro país por um ano, talvez dois.
A principal “desculpa” para o sabático, quando você está lá pelos 30, é a necessidade de “reinvenção”. Pessoal, profissional, de tudo. O assunto é amplo, então aqui me centrarei apenas em um dos muitos objetivos da fuga ao exterior — dar um upgrade na vida profissional através dos estudos. E vou ser mais específica ainda: falarei a partir da minha experiência na Espanha, talvez com alguns respingos das experiências de amigos que se extraviaram por outros países da Europa. Entretanto, acho que muito dessas experiências pode ser similar às vividas em outros países fora da Europa.
Eu vim para Barcelona em 2003, um ano de êxodo brasileiro para a Europa. Só de Brasília éramos uns dez. Mas daquele grupo de conhecidos de lá que virou amigo aqui, só fiquei eu.
O que eu gostaria de ter sabido antes de ter empreendido toda a epopeia? Sim, não é exagero. Mudar pra Europa sem passaporte europeu, sem muita grana no bolso e, ainda por cima, com uma profissão em vias de extinção que depende 100% do idioma para poder ser exercida, é f**a (nota: eu era jornalista). É uma aventura para alguém profundamente a fim de chacoalhar tudo. Mas vamos lá. O que você precisa MUITO saber antes de se mudar de mala e cuia para estudar em outro país?
- ‘Master’ não é mestrado
Antes de queimar seu rico dinheirinho, pesquise bem o que é isso que você quer estudar. Na Europa existe o chamado “Plano Bolonha” que uniformizou o ensino superior no chamado 3+2: três anos de graduação e dois anos de master — ou seja, TODO MUNDO, aqui, mais cedo ou mais tarde vai estar formado com 22 anos de idade e um master embaixo do braço, sem nunca ter trabalhado na sua área. E também tem os masters “não oficiais”, que podem durar só um ano. Se o seu objetivo é pavimentar o caminho para a vida acadêmica, fazendo um master aqui como se fosse um mestrado e depois ir direto para o doutorado no Brasil… Watch out! Pode ser que a convalidação do MEC o coloque no nível de pós-graduação. Os masters geralmente têm uma carga horária muito inferior ao mestrado, além de não incluírem pesquisa científica como a gente entende: pes-qui-sa. O trabalho final de master aqui pode ser tanto um documento de 20 páginas como de 100, mas geralmente recheada de bla-bla-ba. Já fiz dois, em áreas diferentes, e no final das contas não chegaram nem perto da via-crúcis que é o mestrado made in Brazil.
2. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
Quem bola os nomes dos masters aqui com certeza fez curso com a equipe que batiza as operações da Polícia Federal. Ou está mais a fim de confundir que de esclarecer. Ou os dois. Vejam as pérolas:
- Máster en Manejo Avanzado de la Lactancia Materna
- Máster Universitario en Dependencia e Igualdad en la Autonomía Personal
- Creatividad Estratégica en Información Audiovisual
- Máster en Educación Emocional, Social y de la Creatividad
- Máster en Intervención y gestión ambiental: persona y sociedad
- Máster en Etología clínica y bienestar en animales de compañía
Esses nomes rimbombantes são a primeira isca para os estrangeiros que escolhem a Espanha para continuar seus estudos. É bacana tentar adivinhar do que será o curso ou montar a sua ideia com base na imaginação. O que não é muito bacana é a decepção que vem depois. Então, não se iluda muito com o nome floreado do curso e atenha-se ao que interessa:
- Qual é a carga horária? Na minha opinião, master de 6 horas semanais não deveria se chamar ‘master’.
- Quem são os professores? Faça uma pequena investigação, veja se é gente com bagagem, reconhecida, etc. Google básico.
- Como é o processo de seleção? Aliás, tem processo de seleção??! Pergunte sobre isso, seja cri-cri, mas para ser realista, funciona mais ou menos assim: nas escolas “baratas” (que para mim não são baratas de forma alguma), há pouca ou nenhuma seleção. Nas business schools top (onde um curso qualquer começa nos 20 mil euros), parece ser mais sério o processo.
- Alguns masters alardeiam que oferecem “prácticas”, ou seja, estágio. Normalmente é risível. Mas se para você é importante fazer estágio (na minha opinião, é), então tente obter dos gestores do curso o compromisso de que essas “prácticas” não serão ficção e condicione a sua matrícula a elas. Negociação básica.
3. Soy-loco-por-ti-America feelings
Talvez o melhor dividendo de um master em Barcelona para um brasileiro é a convivência com gente de (quase) todos os continentes e, em particular, com os hermanos latinos. Aliás, aqui nos damos conta do isolacionismo brasileiro. Nós sabemos nada ou muito pouco deles. Eles sabem um pouquinho mais de nós (não se iluda que somos os donos da cocada porque não é assim) e nos acham simpáticos. (Todo mundo acredita no mito do brasileiro cordial, mas ok, deixemos pra lá.)
A importância dos estudantes estrangeiros (e dos latinos, em particular) é grande na indústria da educação superior da Catalunha. Segundo dados de 2014, a proporção de estrangeiros nos masters era de 1 para 4; nos doutorados, era de 1 para 3. Em 2008 havia 13 mil estudantes estrangeiros nesse segmento. Em 2014, 22 mil. Em 2020 o objetivo é chegar a 36 mil. Ou seja, é uma indústria MESMO.
E como ficam os latinos nisso? Nos masters, 44% vieram da América Latina e 30% da Europa. Nos doutorados, 49% AL e 33% EU. Tá bom pra você?
4. Tudo é impermanente, Daniel San
Siga o fluxo, amigo. Relax. Inclusive quando você tiver cruzado o charco, estar moído das muitas horas de viagem, estar feito barata tonta tentando achar um lugar para ficar… E o rapazinho da secretaria do master te avisar, candidamente, que ele foi cancelado.
Sim, masters aqui são cancelados sem aviso prévio. E é muito provável que eles tentarão não te devolver 100% do dinheiro. Em troca, oferecerão outro master. Que não terá nada a ver com o que você faz ou gostaria de fazer. Uma colega do meu último master, em comércio internacional, veio fazer algo relacionado com gestão de moda (ela é estilista) e acabou enfiada nos meandros do import-export. Enfim, acontece. Então, relaxa flor. Relaxa e curte Barcelona, que essa é mesmo a cidade maravilhosa. (Ou Madri, que é uma DELÍCIA!).
