A pior fase

Há uma frase que anda rondando minha cabeça nos últimos dias. Uma frase cruel, repleta de significados e importância. “Eu estou vivendo a pior fase da minha vida”. Essa é a frase.

Confesso que sempre fui um tanto dramática. Nos meus tempos de pré-adolescência, meus textos (publicados em um blog desativado desde 2013) tinham um quê de tristeza e fastio da vida. Mas hoje, quando paro pra lembrar daqueles tempos, vejo que botava em palavras apenas meu romantismo sofrido, conquistado depois de muitos livros e filmes. Chego a sentir certa repulsa ao ver como eu dramatizava coisas tão simples, quando minha vida era tão repleta de paz, sonhos e expectativas. Hoje as coisas já não são assim.

Voltando para a tal frase, vejo que de fato estou vivendo os piores momentos da minha vida. Em 2015 as coisas foram virando de pernas pro ar, os sentimentos foram se tornando confusos, a angustia foi obstruindo a garganta, o desespero tomando conta… e estou assim desde então.

A palavra “sofrimento” nunca teve uma conotação tão pensada e impossível de sustentar. Família, amigos, estudos, passado, nunca foram tão massacrantes. Crises, oscilações de humor, ataques, choros, pensamentos suicidas que perduram ao longo de uma noite inteira. Ansiedade, arrependimentos, cansaço. Meu cérebro anda por caminhos obscuros que me fazem acreditar em coisas que me diminuem, me massacram, me tornam só, em meio a uma vida que nunca pedi e que não consigo ter forças pra continuar levando.

É sempre o mesmo ritual. O fim da tarde vai chegando, eu vou ficando nervosa, irritada, sentada sem ter vontade de ler, conversar ou fazer qualquer outra coisa. A noite vai tomando conta e a tristeza vai se emaranhando em cada vestígio de pensamento. Sinto-me impotente, presa, amarrada, como se rasgos estivessem sendo feitos, como se algo pontiagudo perfurasse meu peito. Olho pro relógio, já passa da meia noite. A certeza de que nada mais vai salvar aquele dia me atormenta, eu choro, esperneio dentro da minha própria cabeça. Deito no escuro, embaixo do edredom e entro em desespero, penso em formas de tudo chegar ao fim, lembro de palavras já ditas, lembro de agressões, lembro de sangue e do passado. Lembro da falta de amor, da falta de confiança, laços rompidos, mágoas, egoísmo. O choro vai me embalando ao longo da madrugada, até eu pegar no sono com as bochechas úmidas e o travesseiro encharcado.

Ao acordar sinto um peso que me impossibilita de levantar durante horas. É como se meu corpo não conseguisse forçar meu cérebro, ou como se meu cérebro paralisasse meu corpo. Até que em um rompante, o cheiro de café me faz levantar. E assim começa mais um dia. Eu penso no que posso fazer pra amenizar o que venho sentindo, faço planos para as próximas horas, listas, evito pensamentos e as horas vão passando. A falta de vontade vai me impedindo de fazer tudo o que cheguei a planejar em alguns momentos. O dia vai caminhando, o fim de tarde chegando e tudo volta a acontecer.

E junto a tudo isso, vivo entre relações conflitantes, aulas torturantes, cobranças absurdas. Minhas pilhas de livros me chamam, suplicam pela minha vontade, mas nem isso é prazeroso como antes. Tudo vai perdendo o sentido. Estudar pra quê? Conversar pra quê? Ler pra quê? Qual o sentido disso tudo se tudo está uma merda de qualquer forma?

Logo farão dois anos que entrei nisso e a cada dia que passa me sinto muito pior. Estou perdendo amigos, estou deixando de amar, estou me tornando fria com os outros, cansada de qualquer demonstração de preocupação que não levará a lugar nenhum. Estou me sentindo sozinha como nunca. Estou cansada da sensação de estar sentindo pena de mim. Estou cansada de palavras prontas dos outros.

Só espero que um dia isso tudo passe. Porque o que passou a dominar minha vida ano passado, está destruindo qualquer vestígio dela. Estou morrendo de dentro pra fora, estou deixando de existir, estou me perdendo de mim mesma. Eu só quero que isso acabe. Não importa como. Só que acabe.