Um dia de cada vez

Por que nos preocupamos tanto com o futuro? Eu me pego fazendo essa pergunta para mim mesma quase todos os dias. Nascemos com um milhão de possibilidades para as nossas vidas. Cada decisão que tomamos afunila ainda mais nossos destinos. Isso não soa desesperador? Aquela ligação que você não atendeu há uns meses, aquela matrícula que você fez há quase três anos ou até mesmo aquela frase que você disse no calor do momento. Tudo isso pode ter sido responsável por tudo o que você vive hoje e vai viver amanhã. E o pior dessa história toda é que não dá para voltarmos atrás.

Sempre fui de pensar muito no amanhã. Sempre passei muito tempo planejando o tempo certo de cada coisa, o ano exato em que realizaria minhas vontades, as palavras que diria para determinada pessoa. A questão é que só agora, com meus vinte anos, consegui perceber que nada, absolutamente nada, acontece da forma exata como idealizamos. Quando eu poderia imaginar que hoje eu estaria aqui, tendo que curar todas as feridas que minhas escolhas causaram? Tendo que aceitar que meu futuro nunca vai ser como o que aquela menina de 14 anos planejou?

O fato é que percebi — não sei se tarde demais — que sempre passei muito tempo pensando no futuro e sendo uma extrema inconsequente nas minhas decisões do hoje. Sempre fui metódica demais ao pensar nas escolhas que faria daqui a cinco, dez anos. Mas quando tinha que tomar uma decisão rápida e preciosa, eu nunca parei pra pensar nos prós e nos contras, mergulhava com tudo no que minhas emoções momentâneas e frívolas escolhiam, sem nem mesmo dar conta que o mergulho profundo mudaria todo o amanhã e poderia me afogar.

A vida é estranha, disso eu já tenho certeza. E não me espanta nada saber que o ser humano sempre está em busca do sentido para tudo isso. A vida é sempre um único caminho sem retorno, ás vezes com atalhos, mas nunca possibilita o sentido contrário. Quem sabe como teriam sido as coisas se eu tivesse seguido o conselho da minha professora do terceiro ano sobre qual curso escolher? Quem sabe como teria sido a minha vida se eu não tivesse demorado tanto pra pedir perdão para uma determinada pessoa? Quem sabe como eu estaria agora se tivesse deixado o orgulho de lado quando me pediram pra voltar? Quem sabe como seria se eu não tivesse sido tão mesquinha e imatura a ponto de ter ideia fixa nas conquistas do futuro?

Por isso agora eu tento manter em foco a possibilidade de não pensar no amanhã. Casamento? Filhos? Doutorado? Pra que gastar tanta energia nisso enquanto poderia estar decidindo algo que pode fazer diferença na minha vida hoje? Pra que perder tanto tempo com coisas que podem mudar de uma hora pra outra? A minha cabeça anda do mesmo jeito que esses parágrafos, repleta de questionamentos. Agora eu só preciso me concentrar em acordar, tomar a medida certa de café pra me manter de pé e escolher uma roupa fresca para mais um dia de faculdade. Agora eu só preciso viver um dia de cada vez. Com calmaria, quietude e seriedade. O amanhã? Deixa que ele toma conta de si. Afinal, viver é isso né?

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