Brevidade

Melancolia — Gabriel Fazan

Depois que você foi embora eu deixei o cinza tomar conta.
De mim, da casa, do céu.
Porque meu coração murchou como um balão que perde todo o ar. Mesmo sem estourar.
Olhei pra fora e vi a chuva caindo.
Pensei que as gotas que correm aqui dentro só lavam os olhos. Queria mesmo era estar lá fora, lavando a alma.
Me resignei e permaneci querendo que tudo fosse embora.
Sei ser, mas não sei sentir.
Sei sentir, mas não sei deixar.
Sei deixar e adeus.
É assim. E eu sou. Assim.
Ao som de trovões e relâmpagos, procuro frestas por onde me enfiar. Incansável, procuro mesmo, até achar.
Sempre acho? Sim, é o fardo de quem procura.
Tudo é tão temporário…escorre pelos dedos, escorre pelos olhos, escorre pelo ralo.
Vai embora.
Vai embora?
Não vai.
Queria que fosse. Ou não.
Mas foi. Foi assim que foi.
Mesmo assim eu disse sim. Antes de dizer não.
Fecho os olhos, ouço a chuva respingando por todo lado.
Fecho os olhos e a chuva já passou. Acabou como toda e qualquer tempestade.
Fecho os olhos e vejo o que de olhos abertos nunca consigo: são nessas tentativas que nascem e terminam nossos breves romances de sonho.