Depois do nosso tempo

As vezes me pergunto, será que daríamos certo de novo?
É essa teimosia que insiste em me questionar, atormentando meu sossego.
Mas curioso, a dúvida que move essa pergunta preenche o exato lugar na cabeça e no coração que a indecisão preenchia nos meses a fio em que eu briguei comigo mesma antes de te deixar.
Num sorriso vazio, me conformo que a vida realmente é cíclica. Entre voltas e voltas, às vezes a gente volta pro mesmo lugar de onde partimos, sem de fato retornarmos ao início de tudo.
Afinal, irreversível é tudo aquilo que foi consumido de um jeito sem deixar a possibilidade para que fosse de outro.
Nas nossas recorrentes conversas sem propósito, tenho a sensação de que queremos estar perto, mesmo a (oce)anos de distância.
Eu continuo te perguntando, nas entrelinhas, sem deixar claro o que realmente quero saber, sempre na tentativa de enxergar se você ainda consegue desvendar os meus mistérios.
Me entrego a esse risco sem sequer pensar o que seria de mim se você conseguisse. E você também continua me respondendo com a delicadeza de me deixar no mesmo lugar. Mas tudo bem, respostas nunca foram nosso forte.
A nossa beleza sempre esteve em questionar todas as conformidades que sempre existiram nesse mundo de inexatidão.
Queríamos ser diferentes.
Fomos. Juntos. Separados. Separamos para permanecer. Fomos para nunca nos distanciarmos de nós mesmos.
E ainda que tenhamos seguido à parte, cumprimos um propósito nosso, unicamente compartilhado.
Mesmo que ele passasse a significar um eu e você e não mais um nós.
Mas eu sei, você sabe, que definitivo entre nós sempre foi o amor que tivemos um pelo outro.
Um amor sutil como um arco-íris, que surge depois de cada tempestade em um céu novamente ensolarado.
Permaneço na companhia de infinitas questões. Resposta pra nós dois continuo não tendo, ainda que depois de ter tido tanto tempo pra pensar. Fico sem saber, com a sensação de que realmente nunca saberei, mesmo sabendo lá no fundo, que é provável que nossos sentimentos não correspondam à expectativa que nós mesmos temos sobre eles.
Anos se passaram e eu notei que eles se passavam. Anotei dia a dia nesse calendário chamado ausência, chegando a conclusão de que não fomos imunes ao afastamento que se estabeleceu entre a gente.
Que saudade incerta essa minha, porque não sei se é de você, se é da gente ou, ainda, se é de quem eu fui quando estava ao seu lado.
Insistimos nossas conversas tentando manter o significado que teima em existir entre a gente, mesmo ele não existindo mais em palavras. Não sei explicar, apesar de sentir.
Nenhum de nós dois admite, mas existe um calor latente que nos faz buscar um ao outro sem ter ideia do que realmente esperamos um do outro.
Alguma coisa nos faz acreditar que ainda somos aqueles de sempre. E mesmo depois de toda a mudança, quando penso em você, me reconheço.
Te enxergo, me vejo. Ainda que neste espelho só restem fragmentos, continuo tentando colar nossos pedacinhos.
Quando eu parti, te deixei em um plano imaterial. Te transferi pras minhas lembranças, onde felizmente posso entrar de vez em quando, quando fecho os olhos e toco de levinho cada uma de minhas memórias. Contraditoriamente, eu sempre continuei materializando você do meu lado, mesmo que minha vida e minhas horas fossem preenchidas por outras pessoas.
Enquanto preencho essas linhas falo com você. Estamos em hemisférios diferentes.
Só que essa distância, hoje, me parece menor do que a que houve entre nós enquanto ainda dividíamos nossos dias.
Sinto saudades. Mas não força suficiente pra te dizer, eu errei, eu não tive paciência. Insisto porque me lembro, você se apaixonou por minha impaciência. Pela avidez de viver que eu tinha, a mesma que sempre motivou você.
Obstinada, martelo nas mesmas dúvidas a esperança de um fim transitório.
Depois do nosso tempo, foi difícil saber o que restou. Só sei que o que restou não poderia nunca ser chamado de resto quando ainda é tão tudo.
Nunca quis que você partisse, mesmo tendo eu partido seu coração.
Feridas que se fecham, cicatrizes que nunca se apagam. Todos temos marcas singulares que pra sempre estarão estampadas em nós. Só que de vez em quando a gente se dá conta de que a dor sumiu e que o vestígio que ficou tem a sua beleza, mesmo com significados inocentemente imprecisos.
Mas dúvidas não existem sem perguntas que, por sua vez, não existem sem motivação.
E no desassossego das incertezas, dos silêncios, das entrelinhas, das palavras ditas e das não ditas, por fim compreendo.
Depois do nosso tempo sempre vai existir espaço para o tempo voltar a ser nosso.