Estranhamento

Endless Dream I — Paula Medeiros

Te olhar e não ver você só me faz pensar que é estranho todo o estranhamento que restou entre a gente.

Um dia qualquer fez com que qualquer outro dia nunca mais fosse como costumava ser.

Dia esse fora da rota de previsão, com nenhuma pretensão e sem prometer qualquer precisão.

Apenas mudou.

Como quem muda de endereço sem dizer pra onde, mudamos os dois. Endereçando nossas vidas a outros destinos, esses, certamente incertos a partir dali.

Fui eu quem saiu ou foi você quem não ficou?

Não sei, já não importa mais.

De todo modo, é tão estranho como olhar pra uma roupa antiga que não nos cabe mais e que sempre esteve com a gente até um dia finalmente dizer: chega.

Nos desfizemos.

Te ver de repente, aparecendo assim, aleatoriamente, ainda me assusta. Desenha na minha frente um fantasma cheio de vida que reaviva as lembranças, mesmo que elas não me provoquem mais nada.

Nos assustamos, invertidamente, com nosso (des)conhecimento.

Esbarrar você por aí me traz memórias vazias de nostalgia, mas que ainda assim são repletas de significado.

O que incomoda na verdade não é saudade. É a ausência de propósito que você me provoca hoje, quando um dia você foi o propósito da maior das minhas alegrias.

É estranho te ver, é estranho te cruzar sem ao menos um olá.

Fomos parceiros, fomos vida, até relutantemente percebermos que no fim, mesmo os dias mais ensolarados, ressoavam todos em diferentes tons de cinza.

A contragosto, achamos a saída.

Na mesma rua de sempre estamos eu e você, mas cada um em uma direção. Me pego pensando, é mesmo estranho, mas pelo menos teve fim, dentre tantas histórias sem desfecho que vivemos por aí.

Olho pra você e não te reconheço mais. Agora, simplesmente porque também já não me reconheceria mais ao seu lado.

Adoraria saber como você está. Mas, no fundo, no fundo, tanto faz, seria mesmo estranha a sua presença quando construímos tanto sobre nossas ausências.

Porque por mais que nosso tudo seja hoje um grande nada, ainda assim esse nada foi muito tudo do que um dia a gente foi.

Tudo que estranhamente e de repente, se foi.