O silêncio nosso de cada dia

Creation — Beth Hoeckel

O silêncio nosso de cada dia vive naquela mensagem que não temos coragem de enviar.

Mora em ligações que ensaiamos durante horas, mas que nunca acontecem.

Habita fotos que a gente olha por incontáveis e inquietos minutos.

Se esconde nas músicas altas que ouvimos para tentar afastá-lo.

Se contradiz em sorrisos que a gente dá pra tentar substituir as lágrimas que escorreram mais cedo.

Se reafirma nas nossas tentativas de ser feliz com um buraco no peito.

Preenche as horas em que a gente sufoca sem motivo aparente.

Alimenta a agonia de todas as dúvidas.

Aparece nas esquinas que a gente vira esperando esbarrar com alguém por aí.

Nos decepciona em cada estranho que a gente escolhe pra conversar sobre assuntos que a gente gosta.

Insere memórias, algumas falsas, outras verdadeiras, em todo pensamento que a gente tem.

Nos coloca de volta na angústia das decepções.

Elimina novas vontades para manter as antigas.

Consolida dolorosas previsões.

Paralisa velhas esperanças ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, as alimenta.

Impregna cada momento do dia. E da noite.

Transforma movimento em incômodo e inércia em companhia.

Nos sacode em impulsos incontroláveis na tentativa de rompe-lo, ao mesmo tempo em que leva embora toda a coragem que isso poderia exigir.

O silêncio nosso de cada dia: tem algo de estranho com ele.

Porque apesar dele criar toda uma distância entre a gente, ele ainda é a última coisa que de alguma maneira nos aproxima, já que ele é tudo que restou entre nós.

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