As Janelas de Béla Tarr

Os personagens de Bela Tárr estão condenados a migrar, ironicamente realidade de muitos húngaros e aquela parte eslava da Europa até hoje, com realidades econômicas abaladas e história mesclada a diversos conflitos relacionados à ocupação e desocupação. Seus personagens se migram o fazem pelo cansaço da não opção e talvez seja por isso que não vemos nenhuma esperança em suas idas — o mundo melhor é uma ilusão e tantas vezes prometido, tantas vezes tirado. É preciso que as horas passem e é preciso alimento, é preciso um teto, é preciso hierarquia e assim vão se desenhando à nossa frente relações baseadas em interesses pessoais. Agora, eu entendo porque eu demorei tanto pra aceitar a realidade pessimista de Cavalo de Turim, atribuindo diversas vezes alguma possibilidade de contato verdadeiro ou de compadecimento nietzschiniano: Como poderia uma relação pai e filha, isolados, não conter nenhum tipo de afeto que vá além das atividades em comum que ambos desempenham para que haja a manutenção do dia a dia? Digo, onde está o inútil das relações?
Seus personagens quando sentam à janela, fitam cenários emoldurados que não parecem vir para aliviar a claustrofobia dos ambientes internos, pois à nossa frente só há um mundo inabitável, rude e de atmosfera opressiva — um eterno amanhecer, entardecer, anoitecer: os momentos obscuros dos instantes transitórios. Suas atividades associadas a recursos que se vão: o cigarro é fumado, o fogo é acesso, a comida é engolida, o vinho é tomado e uma dança de perspectivas violentas se forma. O médico de Satantangó, um alcoólatra que se relaciona com a fazenda coletiva que vive de forma voyeurística a maior parte por não sair de casa desenvolvendo o seu peso e estagnação: apenas observando os desenlaces pela sua janela, ele se relaciona com a comunidade e conta o que vê para um papel, daquela perspectiva desoladora que o faz só sair de casa quando precisa de mais bebida. O mundo é hostil e o veredicto é que o melhor é não mais vê-lo, não mais senti-lo, não mais querê-lo. A frustração seguida de abdicação voluntária é boa ventura; esse médico tem é sorte. A janela pós-sexo de Danação, com um cigarro-companheiro que se esgota enquanto tudo continua igual. A visão que a menina tem para contemplar o mundo com seu gato no colo, aquele gato que é maltratado e acariciado; o gato, animal, portanto abaixo dela em um mundo em que ela está abaixo do amigo, da mãe, e por aí vai. A janela dos que esperam o cozimento da batata: primeiro da batata quente e depois da batata crua. A batata que dá, a batata que tem. Todos igualmente marginalizados e incrivelmente humanizados quando são apresentados como o que são — adeus à metafísica! Plano-sequência e vacas andando sem pasto pra pastar! Ali está a Hungria pós-comunismo, os camponeses com terras secas sem saber aonde mais arranjar trabalho, as mulheres que transam, os messias de discursos elevados, as crianças à própria sorte e aqueles que roubam — mas esses talvez sejam um pouco de todos os outros, desses, que diante das janelas vivem as suas horas como as batatas que sobram.
