Sobre favelas, policiais mortos, minha arrogância e a falta de perspectivas.

Eu já tinha 19 anos quando entrei no meu primeiro emprego. 
Era pra coordenar um núcleo do Projovem em Curitiba, o núcleo da Vila Torres. 
O Projovem faz parte do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, do Governo Federal. A Vila Torres é a favela mais antiga de Curitiba.

Eu tinha 19 anos e era responsável por um projeto que envolvia 20 e tantos adolescentes entre 14 e 17 anos. 
Eu claramente não tinha a menor ideia do que fazer ali, mas por algum motivo, em alguns momentos, eu até cheguei a acreditar que eu tinha alguma coisa relevante para passar pra eles. Veja, eu cresci vendo a realidade das favelas da minha janela. Eu cresci no CIC, o maior bairro de Curitiba, que também concentra a maior quantidade de favelas. 
Mas eu me esforcei e consegui estudar de graça numa das melhores escolas da cidade, eu me esforcei de novo e consegui estudar numa das melhores universidades do país. Isso era alguma coisa, eu achava. Mas isso não era nada, eu descobri.

Um dos meninos do projeto uma vez contou que já tinha levado mais de 30 “gerais” da polícia enquanto ia ou voltava da escola, que isso era tão chato que em dias que ele sabia que a polícia estava no bairro ele até desistia de ir. Ele tinha 15 anos. Uma das meninas do grupo disse que, também, pudera, ele tinha “a maior cara de flagrante”.

Um dia uma das meninas estava chateada, não interagia muito com o grupo, ela tinha 16 anos, 2 filhos, e disse que estava meio chateada porque a polícia tinha matado a melhor amiga dela na porta da casa dela, “e ela nunca tinha feito nada, acho que confundiram com outra”.

Essa mesma menina, um dia me contou que tinha começado a fazer “uns trabalhos” pro traficante da Vila. Pra ganhar um dinheiro enquanto não conseguia nada. Eu, no alto da minha sabedoria que só os 19 anos te permitem ter, disse, com muita calma, que ela sabia melhor que eu os riscos disso, o quanto era perigoso, que ela tinha dois filhos que precisavam dela ali. Ela, com ainda mais calma, me disse: “meus filhos precisam de comida, eu tenho 16 anos e ninguém me contrata pra nada, isso é a única coisa que eu consigo fazer agora, não é o que eu quero não, mas meus filhos precisam comer.”

Eu tive um professor no ensino médio que dizia que nós, ali numa escola particular, não eramos capazes de imaginar o que uma pessoa é capaz de fazer para dar comida pros seus filhos. Nós não eramos. A maioria de nós continua não sendo.

Uma das meninas um dia me perguntou se eu era rica, ela dizia que eu tinha cara de rica — eu era branca e fazia faculdade, acho que era isso que ela queria dizer -, eu disse que não. Ela perguntou se eu morava em apartamento, eu morava (num apartamento da Cohab), então eu era rica, ela concluiu. O sonho dela, ela dizia, era “morar num apartamento igual os da novela da globo”. Eu era rica, porque eu claramente estava mais próxima desse sonho que ela, embora eu estivesse muito distante.

Na metade do projeto teve um evento do Ministério do Trabalho, fazendo cadastro de jovens que buscavam o primeiro emprego. Nos preparamos, fizemos currículos, chamamos pessoas qualificadas para conversar sobre entrevistas de emprego, agendamos a data do evento para que todos fossem se cadastrar. No outro dia uma das meninas era a piada do grupo. Ela tinha colocado como pretensão salarial, para seu primeiro emprego, um salário de R$800,00. Ela nunca iria conseguir, eles falavam, “meu pai trabalha tem anos e agora que ganha isso”, disse um dos meninos. 
Todos esses adolescentes estudavam.

Em 2006, a escola que eu estudava escolheu 2 alunos para um encontro com o MV Bill, rapper que produziu o documentário “Falcão — Meninos do tráfico”, ele tinha acabado de lançar e estava andando por algumas cidades para conversar com adolescentes sobre sua experiência produzindo este trabalho. Eu fui, e de tudo que foi falado lá o que mais me marcou foi o MV Bill dizendo que “não adianta construir uma escola no pé do morro, o problema dessas crianças não é falta de educação só não, é a completa falta de perspectiva.” Ouvir sobre a falta de perspectiva dessas crianças faz você se sentir um pouco mais esclarecido sobre os problemas do mundo, conhecer a falta de perspectiva faz você se sentir ridiculamente impotente.

E aí basta que aconteça qualquer tragédia envolvendo policiais, que pessoas que amo e pessoas que nem conheço, começam a compartilhar um mesmo desabafo de uma mulher de um policial que foi morto em serviço, praguejando contra os direitos humanos, dizendo que se trata de uma farsa porque ninguém apareceu para ajudar no enterro do marido dela, ou qualquer variável disso, o importante é falar mal dos “direitos humanos”.

Alguns desses compartilhamentos viraram discussões, recheadas de argumentos como “quero ver quando for seu filho/marido/amigo na mão dos bandidos”, manifestações feitas por pessoas que claramente confundem vingança com justiça e não entendem que ninguém pode matar ninguém. A polícia não está aí para te vingar, ou não deveria estar, mesmo que você queira muito.

Eu conheci muito pouco da vida com essas experiências que vivi, mas conheci alguma coisa. O suficiente, ao menos, pra entender que as pessoas tem histórias, todas elas tem. Quando eu vejo essas manifestações “contra direitos humanos” eu não consigo não lembrar dessas histórias que conheço.

Não consigo entender como que uma luta para que as pessoas tenham uma vida digna, para que meninas de 16 anos não sejam obrigadas a trabalhar para traficantes, para que meninos de 15 possam ir e voltar da escola sem levar gerais por ter “cara de flagrante”, para que melhores amigos não sejam confundidos com outros e fuzilados na porta de casa, para que adolescentes tenham perspectivas de vida, para que a necessidade não seja o motivo determinante de todas as escolhas, pode ser confundida com “um movimento que defende a morte de policiais em serviço”.

É sério mesmo? Estamos lidando com um problema dessa magnitude fazendo esse tipo de simplificação? Vocês acreditam sinceramente que as pessoas que defendem direitos humanos para todos, defendem que aquele policial, ou qualquer outro, deveria morrer?

Eu não vou nem entrar no mérito de como essas pessoas concluem que existem pessoas que merecem e outras que não merecem morrer. (Existem os vilões e os mocinhos. E existe a história que é contada — porque nada diz que o policial não é um vilão além do fato de ele ser policial. Por sorte existe também a igreja, pra perdoar por desejar a morte daqueles que estão no primeiro grupo.)

Vamos falar só de como essa revolta não tem sentido. Porque, veja, o que “o pessoal dos direitos humanos” está dizendo, na maior parte das vezes, é que estamos lidando com a criminalidade de forma errada e que isso não resolve, só gera mais revolta, mata pessoas inocentes e piora tudo pra todo mundo.

Cada policial que é morto em serviço é só mais uma prova de que eles estão certos, estamos lidando com as coisas da forma errada pois, claramente, não está resolvendo nada. 
Então por que o alvo da revolta é justamente quem defende que as coisas sejam feitas de forma diferente? 
Por que algumas pessoas se manifestam para manter, sem alterações, um modelo desumano e violento que está tirando vidas de todos os lados todos os dias?

Se você escuta sobre desmilitarização da polícia e sobre tratamento digno para todos e acha que isso é defender bandidos e, indo além, escuta sobre políticas afirmativas, representatividade e aumento de perspectivas para uma parcela da população e acha que isso é uma injustiça, que vai contra sua ilusão de meritocracia, se você acredita que andar armado vai resolver o problema da violência, se você acredita que existem oportunidades para todos que se esforçarem o suficiente, eu peço desculpas pela arrogância, mas acho, de verdade, que você não entendeu é nada.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.