Sobre raízes.

Me dei conta esses dias que nunca entendi integralmente a expressão “criar raízes”. Eu entendia o significado, por óbvio, mas não percebia a carga emocional que tem nisso.
Veja, até meus 8 anos de idade eu mudei de cidade 5 vezes, até os 14 anos eu mudei de escola 7 vezes. Pra uma criança, mudar de escola é basicamente mudar todo seu ciclo de convivência diária. Assim, o conceito de “ter raízes” parecia uma grande bobagem pra mim, em verdade, depois de uma certa idade, percebi que essas tantas mudanças me deram uma capacidade de adaptação em novos ambientes e uma capacidade de socialização considerável.
Eis que depois de 26 anos morando com meus pais e 18 anos morando na mesma cidade, eu saio da casa dos meus pais, mudo de emprego e de cidade — para um lugar onde, pra não dizer que não conhecia nada, eu já tinha ido:
- 1 vez para uma exposição, indo e voltando no mesmo dia
- 1 vez para fazer meu visto, indo num dia e voltando no outro
- 1 vez para uma conversa nesse novo emprego, da qual saí com a missão de, primeiro, descobrir onde eu estava para chamar o uber e, segundo, voltar pra casa e organizar tudo para me mudar em duas semanas.
Como quem tem amigos tem tudo, eu consegui uma amiga para dividir um apartamento e um amigo para me acolher na casa dele enquanto esse apartamento não existisse. Então eu fui, em duas semanas eu deixei tudo pra trás.
Eu não tinha me dado conta disso, (na verdade eu só conseguia focar no fato de que eu estava deixando um escritório que me deprimia enquanto todos a minha volta acreditavam que eu deveria estar feliz por tamanha conquista profissional, e caminhando pra um lugar que eu realmente considerava uma conquista profissional, enquanto alguns a minha volta me diziam que abandonar um escritório que era meu era a maior burrice da minha vida), mas o fato é que aos poucos eu fui percebendo que eu deixei muita coisa pra trás mesmo, não era só uma forma de falar sobre mudança, era realmente isso.
E essas coisas todas que eu deixei pra trás não eram tão fáceis de encontrar nessa cidade nova, porque o que eu deixei eram raízes e a gente demora muito pra enraizar novamente, ando lendo muito sobre gente que vive essa experiência e sei de gente que não enraizou nunca mais. Diz que dá pra ser feliz assim também.
A verdade é que raízes não são sobre ter um grupo fixo de amigos para sair aos finais de semana, embora tenha ligação com isso também. Mas acho que raízes tem mais a ver com uma sensação de pertencimento, de fazer parte daquele ambiente e das pessoas te verem como parte daquilo tudo.
Essa sensação de pertencimento ocorre meio que naturalmente quando você reconhece os rostos que andam na rua e percebe que seu rosto é reconhecido também, quando você sabe onde ficam as coisas na cidade, tem noção dos pontos de referência, sabe dizer se vai chover ou não só de olhar pro céu.
Tem a ver também com você saber pra onde ir e ter automaticamente um nome na cabeça pra quem ligar quando algo dá errado. Ter um teto que também é seu, embora não seja, pra onde você pode ir sem marcar data quando não dá mais vontade de ficar em casa. Ter o seu local favorito, saber em que lugares da pra andar com segurança e onde é preciso ficar esperto. Ter aquele conhecido que você não vê faz tempo e cruza com ele na rua, e aquele amigo que mora ali por perto de onde você foi resolver uns problemas e que você pode chamar pra tomar um café despretensioso e reclamar da demora da fila do cartório.
Tem a ver com seus grupos de amigos viverem experiências parecidas por estarem na mesma cidade, e as histórias que você vive terem sentido para todos eles.
Quando você rompe com isso tudo, ainda que a tecnologia permita um contato maior com quem está longe, você percebe a diferença que faz.
Parece que é inevitável, quando você muda seus amigos se afastam. Não por maldade, nem por falta de amor, mas por a vida ser assim. De um dia para o outro eles percebem que você não faz mais parte daquela rotina da cidade, que algumas coisas não tem mais sentido de serem compartilhadas com você — e quando eles tentarem você vai perceber que realmente não tem — e você vai perceber que muita coisa ali não faz sentido você compartilhar com eles. Os seus amigos de todos os dias vão se tornar os amigos que moram em outra cidade (e você vai se tornar isso pra eles também), não é ruim, mas é bastante diferente.
Esse afastamento faz com que vocês deixem de acompanhar mudanças sutis e diárias uns dos outros e quando vocês se encontrarem vai existir a inevitável sensação de que são pessoas diferentes que estão ali. E são.
Esse mesmo descompasso vai acontecendo com a própria cidade também. Você volta pra lá e percebe que seus lugares favoritos fecharam sem você nem se despedir, que lugares novos surgiram, prédios foram reformados naquele seu caminho de sempre e você nem viu a obra. Vai ter a sensação de que a cidade está muito diferente do que você lembrava, e provavelmente está.
A casa dos seus pais, embora ainda possa ser um lugar ótimo para estar, não é mais a sua casa. Você já não sabe onde fica o açúcar e nem como funciona a nova caixa de som da TV. Tem uns vizinhos novos que não te reconhecem e você começa a compreender que aquele amor que seus pais tem pela geladeira e pela disposição exata das flores na mesa é de fato um amor verdadeiro, você também tem isso com sua casa agora.
É aí que vem a percepção de que você tirou suas raízes de lá. Mas, ao mesmo tempo, ainda não fez raízes em lugar nenhum. Porque, embora você saiba onde fica o açúcar dentro da sua casa, a cidade nova ainda é um emaranhado de coisas estranhas. Você ainda não entende as referências, não se acostumou totalmente com o sotaque e não sabe ir muito além das ruas que formam a quadra da sua casa.
Você começa a conhecer uma infinidade de pessoas novas, já que todas as pessoas são novas, e percebe que é verdade que a gente se descobre na ação de conhecer o outro, porque começa a se conhecer e se perceber como nunca antes.
Esse processo todo é mais solitário do que parece, toda essa falta de referências, de pessoas e de tetos cria um vazio maior do que o que a gente imagina.
No meu segundo ou terceiro mês na cidade nova, conversei com um amigo que já tinha se mudado algumas vezes. No auge da empolgação de estar vivendo essa nova fase eu comentei que mudar era mais fácil do que eu imaginava, ele só disse “espera um pouco, está muito cedo ainda”.
Estava cedo mesmo. Mudar de cidade e reconstruir as estruturas é uma sequência de altos e baixos que só o tempo mostra. A gente vai se percebendo, crescendo, constatando coisas que não imaginava. É lindo, é revelador, é importante, mas é, muitas vezes, profundamente dolorido.
Agora, completando um ano e meio na cidade, eu sinto que as coisas estão infinitamente mais pesadas do que eu gostaria, e lidar com isso tem exigido mais de mim do que eu esperava, mas nos piores momentos eu gosto de respirar fundo pensar que o conselho ainda é válido “espera um pouco, está muito cedo ainda”, sempre ajuda.
