Piromania

O dia em que The Doors me fez chorar

Não faz muito tempo, mudei meus trajetos diários de casa-trabalho-faculdade-casa, o que me faz passar mais tempo no transporte público. Morar em São Paulo tem dessas coisas, a gente demora uma hora pra chegar em qualquer lugar e acha que é perto. “Só uma horinha”. Em uma atitude muito positiva, imagino esse tempo no transporte coletivo como um tempo ideal para se pensar. É um lugar onde a maioria das pessoas não está interessada em conversar, só querem chegar aos seus lugares de destino. Você não se sente obrigado a socializar, não tem muitos artifícios chamando a sua atenção e você vai ter que ficar ali parado até chegar sua hora de descer. Penso nos meios de transporte como uma metáfora do limbo. Você saiu do lugar onde estava, mas ainda não chegou ao lugar onde queria chegar. Está ali, em um estágio intermediário, sem ter muito o que fazer além de esperar o seu destino. Se eu acreditasse em céu, inferno e a porra toda, o limbo certamente seria um vagão vazio de metrô, onde você entra e não​ há nada a se fazer além de esperar sua hora de desembarcar.

Hoje eu estava no ônibus, saindo de algum lugar e tentando chegar à outro lugar, sem muito o que fazer além de ouvir músicas no fone de ouvido, conferir a tela do celular periodicamente e olhar para a palavra DEGRAU por tempo o suficiente até que ela começasse a perder o sentido real e me lembrasse um advérbio em alemão.

Eu não estava de fato prestando atenção na seleção aleatória de músicas, até que o Jim Morrison começou a cantar “Light my fire” no meu ouvido. Faz tempo que não ouço The Doors. Tempo o bastante para eu me esquecer que um dia fui muito fã de The Doors. Mas ouvir aquela música me fez lembrar de um tempo, que nem está tão longe na linha cronológica da minha curta vida, mas que parece absurdamente distante na minha linha do tempo mental, onde eu dançava animadinha essa mesma música e outras do mesmo estilo. O ônibus quente e cheio de gente me fez lembrar, por um instante, de noites na pista de um bar apertado, ouvindo as músicas estouradas do lado da caixa de som. E percebi que ao mesmo tempo em que dançava e cantava o refrão “Come on babe, light my fire”, estava com pessoas que apagavam isso em mim. Esse fogo. Até deixar só uma brasinha, quase morrendo. Relacionamentos, convivências, tudo o que tentava jogar um balde d’água na chama que crescia em mim.

“Apagar o fogo” nunca soou para mim como expressão positiva. Não vejo como algo bom que alguém chegue e tente apagar qualquer coisa de mim. Melhor é gente que deixa queimar. Percebi que as pessoas deveriam viver mais deixando queimar do que apagando o fogo. Talvez eu tenha notado isso antes, mas não tenha me dado conta do meu próprio incêndio sendo controlado. A troca de roupas porque alguém achou que não era adequado sair daquele jeito, as amizades deixadas, porque alguém não queria que falasse com aquelas pessoas, os lugares que não se podia mais ir, até restar só uma fumacinha. Não sei exatamente quando o fogo recomeçou, mas foi como uma velinha de aniversário assoprada. Os segundos de tensão em que ela permanece apagada, duraram anos, até que a chama se acendeu novamente, seguida pelas palmas.

O ônibus chegou onde eu deveria descer, mais ou menos na mesma hora em que a música acabou. Algo me diz que provavelmente não irei ouvi-la por espontânea vontade tão cedo, mas sinto que foi bom tê-la escutado no limbo da espera, o melhor lugar para se pensar sobre isso e lembrar: Try to set the night on fire.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.