Segurança

A gente que é mulher nem sabe o que é isso

Eu sempre me achei muito corajosa, destemida, diria até um pouco inconsequente. Sempre voltei de baladas sozinha. Pegava táxi sozinha de madrugada, andava sozinha a noite como se nada pudesse me atingir.

Os perigos sempre existiram, principalmente sendo mulher. E eu sempre soube disso, mas por alguma razão, seguia sem me abalar. De uns tempos pra cá eu fui me tornando medrosa. Nada aconteceu na minha vida que causasse um trauma permanente. Nenhum divisor de águas me fez sentir medo de sair na rua, andar sozinha, de ser mulher. Mas agora eu vivo com medo. Talvez seja porque o número de mulheres denunciando publicamente os casos de abuso e agressão tenha aumentado, esfregando a realidade na nossa cara. Talvez seja porque a gente vai ficando velho e vai ficando besta, como dizia a minha vó.

As últimas vezes que andei de táxi ou Uber sozinha, fui o caminho inteiro segurando a tranca da porta, pensando em como pular do carro em movimento a qualquer sinal suspeito do motorista. Volto da faculdade a noite correndo, o coração quase saindo pela boca cada vez que, ao virar uma esquina, dou de cara com um homem desconhecido. E respiro aliviada quando ele simplesmente passa por mim, ignorando completamente a minha existência e o meu inferno mental.

A gente que é menina aprende a ter medo de homens desconhecidos desde pequena. A gente corre do bêbado da esquina, evita falar com os caras no caminho da escola, passa na frente do boteco e, enquanto um grupo de homens torce pelo time na final do campeonato, a gente torce pra que eles não percebam que aquele é o único caminho possível para a casa. Eu fazia tudo isso. Depois, mesmo ainda sentindo medo, me obriguei a ocupar os espaços. Andar sem olhar apenas para o chão. Passar pela calçada do bar com passos firmes, porque a rua também é minha. Até que o medo quase que sumisse por completo.

Acho que ler todo dia uma nova história de abuso, uma nova notícia de feminicídio, um novo caso de violência doméstica, nos torna mais medrosas sim, mas porque nos faz pensar. A gente percebe que o problema não tá só no bêbado no fim da rua. Que o problema pode estar dentro de casa. Um parente, um amigo, um namorado. A gente lembra de tudo o que já aconteceu e na hora não parecia parecia errado, mas ainda nos sentimos mal por dias, sem saber explicar o porque. A gente lembra daquele namorado que todo mundo ainda acha um cara super gente boa, mas que te obrigou a transar no Ano Novo, enquanto você empurrava o ombro dele e pedia pra parar. E aí a gente percebe que não pode fazer nada além de sentir medo.

Uma vez eu li que as mulheres vivem sob o planejamento do estupro. Achei pesado. Pensei melhor e vi que é pesado porque é real. A gente vive pensando no que faria se acontecesse. A gente anda na rua sozinha olhando em volta e vendo se tem pra onde correr. “Se eu gritar aqui alguém vai ouvir?”, “Se eu tocar a campainha dessa casa, vão me atender?”, “Melhor mandar a placa do carro pras minhas amigas”, “Será que jogar desodorante na cara funciona?”. Só quem é mulher sabe o tanto de cuidado que tenta tomar. E mesmo assim acontece. Porque não depende da gente. Porque a culpa não é nossa. Porque, por mais que evitemos andar desacompanhadas, não conseguimos nem garantir se o cara que diz que ama a gente vai respeitar o nosso não.

A gente depende o tempo inteiro que os homens decidam nos respeitar. Respeitar nosso espaço, nossos corpos, nossas vidas. Mas, se faltam com esse respeito. Se nos agridem, se nos estupram, se nos matam, ainda ouvimos que a culpa é nossa.

Mulher é corajosa só por estar viva.

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