A Revolução Será Silenciosa
1/366 — Um Texto Por Dia
Aeroporto. Voltando para casa depois das festividades de final de ano.
Chá de cadeira. Voo previsto para às 17:40, hora local 14:37.
Olhando para o computador e pensando em como iniciaria o primeiro texto desse projeto que, em tese, deverá durar 366 dias, me via sem uma meta ou objetivo para o ano que acabara de começar.
Afundada em uma das poltronas da praça da alimentação, eu inicio o texto de várias formas, nenhuma me agrada. O fato de não saber ao certo o que me guiaria esse ano, me impedia de saber o que escrever. Até que o seguinte aconteceu.
Senta direito, Julia. Cruza as pernas como princesa. Senta como uma mocinha. Você está de saia. Se comporta. Para de correr. Você não é menino.
As frases imperativas eram de uma mãe para sua filha — de no máximo 7 anos. Suspendi a escrita e comecei a prestar atenção no discurso da mãe para a criança. Clichês eram cuspidos em direção a menina que prestava atenção sem entender o porquê não podia correr em volta das poltronas com seu irmão ou sentar igual índio. Quanto mais a mãe falava sobre princesas e bons modos, mais a menina deixa o sorriso escapar.
Vendo a cena me questionei até onde eu conseguiria interferir naquela situação, e se interferisse, como eu poderia fazê-lo. Estava claro que não cabia um diálogo, nem poderia repreender a mãe, que no seu direito educa seus filhos como julga o mais correto.
Eu, que estava de vestido, me ajeito na poltrona e me sento como índio, posiciono a bolsa no vão que fica entre as pernas dobradas, coloco o notebook em cima. Antes de voltar para o meu texto, posso sentir a mãe me queimando viva com os olhos, não me importo. A menina entende o meu recado, logo senta da mesma maneira e me sorri como se agradecesse o apoio. Eu sorrio de volta.
Então, eu percebi que 2016 não será um ano fácil, vai ter desconstrução, quebra de paradigmas, lutas e manifestos. E não será em todas as situações que diálogos sobre patriarcado e sexismo será a melhor opção. A (r)evolução será silenciosa.
Pequenos gestos no dia a dia, conversas rápidas que fazem pensar.
Nesse primeiro do ano, me sinto pronta para o que der e vier.