Frank Underwood é fichinha. Eduardo Cunha é o nosso Brás Cubas

Cuidado, amigos, porque este post conterá spoilers

Se tem uma associação óbvia quando vemos House of Cards é aquela, endossada por Jean Wyllys nas redes sociais com hashtag #HouseofCunha, entre Frank Underwood e Eduardo Cunha. Por razões evidentes: os dois tentam criar uma situação insustentável no país e com isso galgar postos rumo a mais poder. No caso de Frank, tanto fez que chegou à presidência — sem apoio, minado politicamente e numa situação difícil dentro do seu partido (quer dizer, situação parecida com a de outra pessoa que conhecemos). Já o senhor Eduardo Cunha tenta desestabilizar o governo federal na presidência da Câmara votando projetos que vão contra o ajuste fiscal proposto desde o início do ano, ameaça uma aliança com a oposição num processo-bomba de impeachment e, até pouco tempo atrás, promovia mais desmoralização ao governo falando de pedaladas, Lava Jato, etc etc etc. Hoje, procura salvar seu cargo levando Dilma de refém na sacada da Câmara.

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Mas isso não se compara ao discurso moralista que ele — o terceiro deputado federal mais bem votado do Rio em 2014, atrás só de Jair Bolsonaro (do PP) e Clarissa Garotinho (do PP também) — vem empreendendo desde que ocupa o terceiro cargo mais importante do país. Não são poucos os casos e nem pretendo enumerar todos: projeto de lei que dificulta a pílula do dia seguinte, projeto de lei que criminaliza o aborto, projeto do orgulho hétero, projeto para reduzir a maioridade penal, proposta de passagens de graça pra esposas de deputados, demissão da equipe concursada de comunicação da Câmara (para colocar aliados da Igreja), além da acusação de inúmeras fraudes desde 1990.

Apesar de tudo isso, diz em seu site que “cobra seriedade”, faz campanha “aborto não!”, se gaba de ser o presidente que “mais fez” a Câmara trabalhar e tem na foto de capa do Facebook a comovente frase “verás que um filho teu não foge à luta”. Temos aí o personagem que é muito menos um político ambicioso dos Estados Unidos do que uma representação do próprio Brasil. Eis o nosso Brás Cubas.

Segundo Roberto Schwarz — não tô inventando nada aqui, claro — Brás Cubas corresponde à própria classe dominante do Brasil quando usa de um discurso recheado de ironia e soberba para narrar suas memórias, fala mal de todos (seu único sentimento “bom” teria sido em relação a Virgília), é picareta (tenta fazer sucesso com o Emplastro Brás Cubas), falastrão, prolixo — mas perspicaz. Ele tenta dar a si uma aura de superioridade e podemos reconhecer isso no seu discurso tão bem quanto nas falas dos políticos em Brasília. É uma estrutura que vemos desde Cabral e que hoje poderia ser resumida em boa parte dos políticos do PMDB (somados com outros partidos, então… não precisaríamos nem de resumo).

A empáfia de Brás — ou de Cunha — é demonstrada, por exemplo, ao rejeitar Eugênia sob o pretexto de que ela é coxa, quando na verdade ela passou a tratá-lo como um igual desde que eles se beijaram, o que lhe causou repugnância. Aqui, para Schwarz, o futuro de Eugênia, como moça da alta sociedade ou como pobre, estava à mercê de um “favor”, um “bom homem” que pudesse levá-la aos altos círculos sociais. Ela tinha boa educação, mas sua família não tinha posses suficientes para garantir-lhe um bom casamento. Brás, dias depois de ficar com ela, lembra do pai e das obrigações da carreira e volta para a cidade, fugindo da namorada.

Assim como Eduardo Cunha na figura de representante de todos os deputados do país, Brás Cubas é a figura que encarna o poder aleatório capaz de mudar a vida de uma pessoa (ou de parte da população) simplesmente porque coube a ele nascer em uma família de posses. Ele poderia alavancar a situação da namorada, representante de uma classe média livre que naquela época, com menos oportunidades ainda, não seria capaz de “subir na vida”. Sem entrar aqui no mérito de como Eduardo Cunha chegou aonde chegou (se tinha posses, se a família era rica), o fato é que sua posição hoje é a da elite do Brasil, assim como a de seus pares no PMDB.

(Frank dá uma piscadinha pra Machado)

No final de Memórias Póstumas, Machadão resume o espírito de Brás Cubas: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto”. Essa classe representada por ele, pelos herdeiros do coronelismo, das oligarquias, dos mais endinheirados — que, naquela época, iam estudar na Europa às custas do suor dos negros nas senzalas e voltavam defendendo um Brasil mais progressista — é a verdadeira essência dos nossos Cunhas por aí (que também são Severinos, Renans, Magalhães, Barbalhos). Enquanto a ascensão de Frank Underwood se explica muito mais pelo seu poder dentro do Partido Democrata, a de Cunha demonstra não só a house of cards peemedebista, mas o que o PMDB representa: a elite centenária do Brasil.

Referênciazinha:
Quando digo de Schwarz, o livro é Um mestre na periferia do capitalismo ❤. A pretensão aqui é zero, não é tratado nem tese de nada, enfim. Estamos aí para críticas, sugestões e temas para o bar!