Psicanálise e Vinho

Lá fora a noite vem chegando, o pôr do sol dava espaço à noite estrelada. Mas que se foda, Laura não gostava muito desse papo romântico.

Ela sabia que estaria sozinha ao chegar em casa. Nada de cachorro ou namorado, apenas sua garrafa de vinho barato e sua playlist.

Um dia cheio. E as reclamações dos estranhos ao seu lado não ajudavam. Um banho completaria tudo, sim um banho. O caminho parecia cada vez maior, minutos preciosos desperdiçados.

Finalmente o lugar começava a parecer familiar. Casa. Jogou sua mochila no sofá, garrafa na mão. Sim. O gosto familiar e forte na boca. Respirou fundo. Um banho ajudaria a encerrar o dia.

Tirou logo a roupa e escolheu a toalha. A água quente nas costas, melhor que muita terapia por aí. Aqueles idiotas não sabiam de nada mesmo. Calados, esperando você dizer alguma coisa. Uma dose grande de vinho resolveria, ou pelo menos ajudaria.

Os pensamentos iam longe, o vapor subia e preenchia o ar, embaçando devagar os azulejos. O vinho começava a surtir efeito, de leve. Relaxada conseguia pensar melhor. Pensar em tudo que não tinha feito, nos beijos não dados, nos caras legais por conhecer, nas noites em casa, nas brigas com a família, no amigo morto.

Não. Essa porra de ficar pensando no assunto não ia ajudar. Relaxar seria melhor, difícil, ainda mais agora com as lembranças rodeando sua cabeça. Inferno. Desligou o chuveiro, se enrolou na toalha, saiu do banheiro e acabou deitada no chão.

Ligou o som no volume mais alto que conseguiu, talvez assim parasse de escutar seus pensamentos.


Originally published at conflitosdiarios.wordpress.com on October 8, 2013.