-você se lembra o que tava fazendo quando deu na televisão que o avião dos Mamonas Assassinas caiu? e quando o Lula foi eleito pela primeira vez? quando o pai foi internado?
-sim, não e sim. por que?
- eu não sei se eu lembro.
quando vou pra São Paulo, mal percebo e já estou correndo, entrando em uma fila, dando meu nome, recebendo um negócio eletrônico que pisca vermelho e ouvindo 40min de espera em média, tá? de repente eu não estou mais lá. Estou naquele vazio de tempo entre o vermelho e verde.
-comecei a fazer um curso de programação em Python
-a é? e como está sendo?
o negócio começou a piscar diferente.
-…pode dar uma lida na justificativa, pra ver se está fazendo sentido?
-moço, começou a piscar mais rápido.
-o sistema cai as vezes, reinicia sozinho.
-tá vendo, meu código vai fazer mais ou menos isso também, só que com…
pressa e espera ao mesmo tempo poderia ser a definição clínica de arritmia, mas são só nossos sábados. será que estou aflita porque seguro o negócio? uma causa-consequência tátil? ele disse que só se acalmou quando segurou suas mãos no hospital, enquanto eu estava em Belo Horizonte, em uma congresso. segurava firme o telefone, como se pudesse, com o gesto, controlar a situação. ele vive bem a espera porque sempre está correndo. eu nunca estou correndo.
-já sabe o que vai pedir?
-não. relaxa, quando a gente sentar na mesa a gente vê.
era sempre assim. alguns meses atrás me levou para outro restaurante. não tinha o negocinho eletrônico, e eu fiquei olhando as mesas.
-você lembra onde estava quando a Dilma foi reeleita?
-não
-me veio essa lembrança essa semana. era um fim de domingo, estava em São Carlos. Foi o alivio mais apreensivo que eu já senti. liguei pra mãe no dia seguinte, e ela “é, vamos ver agora né, eu torço para que seja bom, independente de quem seja”
-eu não lembro mesmo. mas acho que ela disse a mesma coisa ano passado.
-falou com ela hoje?
-não. e você?
-já
