Thanks for the memories!

Quando eu era criança trabalhou lá em casa uma senhora chamada Gilda. Na época meu irmão recém-nascido demandava boa parte da atenção dos meus pais antes destinada a mim. Mesmo minha mãe se multiplicando em cuidados e carinhos não aplacava meu ciúme. Por isso a história da minha infância evolve, necessariamente, esta personagem.

Pode parecer estranho, mas não lembro dela. O que sei sobre quem foi Gilda me chega pelas lembranças de familiares e pessoas que visitavam nossa casa. Faço da memória deles a minha experiência.

Pela manhã, enquanto fazia a comida, Gilda me ensinava a pronunciar as palavras que eu insistia em mutilar, com seu português que, fui saber mais tarde, não concordava muito com a gramática. De tarde assistia TV junto comigo. Chapolin era nosso programa preferido. No fim do dia Gilda ia embora deixando a casa não tão limpa e uma comida não tão saborosa. Algumas vezes objetos desastradamente quebrados, quase sempre pratos ou copos. Mas o que lhe faltava em qualidade de serviços, abundava em carisma e simpatia.

Quando o porteiro anunciava a chegada de alguém, ela se apressava em atender a porta, fazendo festa para conhecidos e desconhecidos. Às vezes, nos natais e reuniões familiares o assunto nos leva à Gilda. Rimos um pouco, recordamos seu jeito de falar alguma coisa e a forma como ela insistia em contar o capítulo da novela da noite anterior. Todos lembram dela.

Certa vez, num paroxismo de desastre, Gilda quebrou parte do lustre da sala. Presente de casamento dos meus pais e objeto de admiração e elogio dos amigos. É provável que tenha sido esse seu ponto final. A virada na nossa narrativa. Gilda foi embora. Por esta época eu já frequentava a escola e transferi para o jardim de infância o papel antes destinado à ela. O da amiga e, por que não, professora.

Depois de Gilda algumas outras pessoas passaram pela minha casa, mais velhas ou mais moças. Faziam melhor ou ainda pior o serviço. Mas nenhuma tinha seu quelque chose.

Gilda, caso leia isso um dia, mande notícias ou quem sabe uma foto, para dar um rosto as minhas lembranças. Trocamos o lustre, mas ainda moramos no mesmo endereço.