Fases da existência e o reflexo nas relações.

Numa dessas madrugadas quaisquer estava lendo um livro, deitada no sofá, quando senti um cheiro que parecia uma mistura exótica de incenso com um tom adocicado, que também remetia há algumas memórias passadas. Isso me trouxe à lembrança uma conversa recente que tive com uma amiga, sobre como o tempo e as vivências influenciam a nossa forma de ver a existência, e sobre como nos comportamos perante às situações diante do acrescentar do tempo em nossas curtas passagens pela vida, como as experiências mudam nossa percepção de mundo…

À medida que crescemos e amadurecemos, porque afinal, não adianta só crescer se isso não vier regado de boas doses de maturidade, acabamos por perceber que nossa existência vai sendo fatiada em fases, e essas fases refletem diretamente a maneira como nos relacionamos com os outros, principalmente nas ditas relações afetivas. Passamos muito tempo sentindo nostalgia por vivências passadas, a ponto de não saber discernir o porquê das mesmas parecerem tão importantes, e porquê não conseguimos replicar a mesma importância nas vivências presentes, mas a questão é que não gastamos tempo suficiente correlacionando essas vivências com todo o resto que se viveu ou o que se está vivendo no momento. E sim, o resto importa, e muito…

Se pararmos pra pensar no porquê tanta gente relata o primeiro namoro como sendo inesquecível, mágico, com um tom nostálgico, ou até mesmo com um peso no olhar e na fala, vamos de imediato pressupor que talvez as primeiras relações sejam mesmo as que nos marcam a vida. Mas afinal, por que nos marcam tanto? Se pegarmos esse mesmo namoro e contrapô-lo com a empolgação que se tem quando finalmente se encontrou aquela pessoa ideal, pois afinal não havíamos vivido nada que pudesse ser colocado do outro lado da balança para medir se afinal era aquilo mesmo, se pararmos pra pensar que na maioria das vezes quando se vive o primeiro namoro, não se tem mais uma outra preocupação grande o suficiente para quebrar-lhe o brilho, e se considerarmos que nos dedicamos de corpo e alma àquilo, e provavelmente somente àquilo, vamos entender muitos dos porquês.

O ser humano é sobretudo dual, ao mesmo tempo em que buscamos consolidação em tudo o que fazemos, nos permitimos que essa consolidação retire parte do brilho do mesmo objeto consolidado, objeto esse que pode ser desde uma relação afetiva, até aquela meta tão sonhada para a carreira. E o mais curioso é que enquanto essa consolidação não vem, focamos com tudo nesse objeto em questão, até que ela venha, depois que acontece, a impressão que dá é que os horizontes se abrem e passamos a enxergar muito mais brilho no que está ao redor, do que no que foi consolidado de fato. Talvez consolidação sirva para isso mesmo, ampliar horizontes, nos fazer querer mais, já que nos sentimos no direito de nos deitar acomodados sobre o que julgamos estar plenamente conquistado, ser plenamente nosso.

O fato é que essa lógica funciona quando utilizamos para o sofá novo que compramos para a nossa sala, mas não quando se trata de relações existenciais com outros seres humanos, talvez o desmoronamento das relações venha justamente da sua consolidação, ou da acomodação perante o consolidar-se. Muitos casamentos chegam num estágio tão grande de consolidação, ou utopia de consolidação por ambas as partes, que eles acabam abrindo margem para tudo o mais que está ao redor demonstrar mais brilhantismo, parecer mais interessante, e isso acaba por levar ao desmoronamento do que parecia tão concreto. É necessário muito discernimento e correlação com tudo o mais que se vive para chegar a encarar que o fato de você não ver mais o outro, com o mesmo brilhantismo com que viu um dia, tem mais a ver com o seu olhar, do que com o brilho real do outro, o outro continua sendo o outro, a mesma essência, mesmo tendo agora um pouco mais de histórias acumuladas, o que muda de fato é a forma como nos dispomos a ver, afinal de contas, um olhar cansado, acostumado, acaba por refletir uma sombra tênue perante aquilo que se vê, o brilho real está nos olhos e não externo a eles…