Somos um amontoado de frustrações que habitam o espaço tempo, na maior parte do tempo inertes, nos adaptamos às mudanças de forma mentirosa, mentimos para nós mesmos, o tempo todo, mentimos que esquecemos, que estamos bem, que nem queríamos mesmo, que nem amávamos mesmo, e vamos acumulando tudo dentro de nós, enquanto externalizamos sorrisos amarelos e petrificados, e um brilho profundo no olhar, porque até mesmo um buraco negro transmite uma atmosfera profunda. Mentimos tão mal que nos dias em que acordamos com o peso do vazio existencial batendo à porta, ousamos pensar e falar que não sabemos porque nos sentimos como se carregássemos um vulcão que ameaça explodir numa erupção destrutiva, que nunca explode, mas que nunca adormece de fato, está lá, em eterno estado de ressonância, causando aquele ardor no peito, que nos faz ter a sensação de não pertencentes à nós mesmos, pertencentes a outros planos, planos esses que desconhecemos, pois enterramos no passado, mas que mesmo a sete palmos, existe, esqueletos fétidos que nos emudecem, pois existem, mas já não têm mais vida para dividir conosco, momentos…

Sofremos de acúmulos, em todos os sentidos, acumulamos muito, dentro e fora, tentamos preencher nossos vazios com exageros, exagero de coisas, exageros de pessoas, exagero de sentidos e sensações, tentamos sanar a falta com o que sobra, e o sobrar não é transbordar, transborda aquilo que te preenche de uma forma que te transcende, mas o que não te preenche, o que não te pertence, esse te sobra, causa incômodo, pois não sana as faltas, pelo contrário, as compõem, não vale a pena tentar trocar uma falta, um vazio, por algo que não te faz sentir pertencente, que não te contempla, esses algos tem a capacidade infeliz e destrutiva de se somarem às faltas, fazendo com que as mesmas pareçam maiores e maiores, mais destrutivas, com mais capacidade de engolir o que ainda se tem de bom e tornar ruim, tornar vazio, desprover de sentido. Não dá pra aceitar nada, reafirmo, nada, que pareça desprover o que é importante de sentido, pois nós humanos somos seres semióticos, sensoriais, a nós só importa o que é importante para nossa alma, nosso espírito; parece redundante, e o é mesmo, nós só sentimos o que tem sentido pra nós, e aquilo que suga os sentidos pode vir a sugar o sentido da nossa existência, tirar de nós o que temos de alma. Por isso é absolutamente mais válido carregarmos nossos vazios tendo ciência de que são vazios e o porquê o são, do que tentar preenchê-los com as primeiras coisas que avistamos à frente, elas podem ganhar força, e ao invés de alimentarem a nós como seres que precisam de sentido, alimentarem nossos vazios, e isso é perigoso… mais perigoso do que carregar vazios providos de suas qualidades de vazios é dar a eles poder de tornar a nós um reduto ambulante do vazio, pois ai sim, tomaríamos essa capacidade de desprover de sentido para nós, e a espalharíamos para outros, sendo nós mesmos os buracos negros que absorvem sentidos de outros, num ciclo vicioso. Tornando a terra um grande habitat de pós modernidade ambulante, com seres que existem, e se sugam, uns aos outros, sem nunca adicionar sentido, somente engoli-los, seres viventes, que apenas existem para alimentar mutuamente os vazios existenciais dos outros, numa sucessão quase interminável, desesperadora. Seres que existem, mas já perderam a capacidade de sorver a vida, transbordar vida, derramar sentido…

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