Um duelo interminável
Todas as noites antes de dormir, ela vem me visitar, me dá um beijo demorado e se esvai na neblina dos meus sonhos… Isso porque ela não é pertencente do doce universo do sonhar, ela consegue ser tão real quanto a dor de cabeça que eu sinto todos os dias ao me ver tendo que levantar da cama horas depois de o sol nascer… Senti-la chegando cada vez com mais pertencimento de mim é como presenciar a vida e a morte assumindo papéis de enxadristas num duelo tão frio quanto perigoso. Perigoso pra mim, não pra elas, elas duelam com total apatia a vida que lhes pertence, pois a elas uma vida a mais ou a menos não passa de um fardo a simplesmente carregar ou delegar ser carregado… A elas só interessa jogar, o prazer consiste unicamente na batalha de mim, não que eu seja de todo interessante, não sou… mas todas as noites antes de dormir recebo o beijo leve da morte que indica que ela está uma jogada à frente de sua inimiga, e todos os dias ao amanhecer sinto a pontada de dor em minha mente, que indica que a vida fez a jogada que reverteu a situação, dia após dia, sempre empatadas numa partida que parece que nunca vai ter fim… eu, um mero detalhe na existência desse tabuleiro, sinto-me mais pertencente ao jeito manso com que a morte se aproxima do que à brutalidade com que a vida se apresenta… mas de que importa, desde que me dei conta da existência, não lembro mesmo de ter sido consultada de nada…
