Você não quer sair comigo — e tudo bem

"Se você me respeita / Não me proteja / Pode me falar, eu aguento"

Mensagens respondidas muito tempo depois com um “desculpa, só vi agora”, saídas canceladas em cima da hora e uma série de “vamos marcar” que nunca se concretizam parecem ter se tornado o jeito padrão de terminar com alguém quando não se está exatamente em um relacionamento, mas alguma coisa está rolando. Dizem meus amigos, mais ativos no cenário de ~encontros~ do que eu, que isso recebe o nome de “ghosting”, ou, numa tradução bem porca, “fazer o fantasma”.

Não é difícil entender de onde isso vem. A maioria das pessoas que eu conheço (eu mesma inclusa) tem pavor de decepcionar ou machucar os outros, e ir simplesmente sumindo aos poucos, desviando dos convites até que a pessoa desista ou se toque, parece mais gentil do que mandar a real e falar “Cara, perdi o interesse. Não tô a fim mais”.

Ah, a ironia!

Se “perdi o interesse” parece grosseiro, “acho que você não dá conta de viver sem mim”, além de grosseiro, é pretensioso e condescendente — e é exatamente isso o que o ghosting diz. Essa tentativa de ser atencioso com os sentimentos dos outros, na verdade, acaba sendo uma enorme demonstração de desrespeito e egocentrismo.

Ninguém precisa ser protegido da sua rejeição, muito menos alguém que você viu meia dúzia de vezes ao longo de 1 mês. A única razão para pensar isso é se você acreditar que sua presença na vida da pessoa é tão marcante e tão central que você irá destruí-la ao se afastar, e isso é fazer pouco da autoestima e da confiança da pessoa em questão.

Até onde eu sei, ninguém nunca morreu de coração partido, então não precisa ter medo de partir o coração dos outros. Dizer na lata “não tô mais a fim” não faz de você grosseiro, muito menos uma pessoa ruim. Pelo contrário: mostra que você se preocupa, que você acha que a outra pessoa merece uma satisfação e um ponto final. Todo mundo tem o direito de perder o interesse; o que não pode é perder o respeito junto com ele.

Algumas semanas atrás, uma menina com quem eu estava saindo me chamou para almoçar e aproveitou o embalo para me dizer que achava que não estava mais rolando. Doeu o ego? Doeu. Mas me deu a chance de falar “é, também acho que não” e me poupou semanas de respostas evasivas e fritação desnecessária por causa de uma coisa que não estava mais fazendo sentido.

Ouvir que alguém não se sente atraído pela gente é chato, mas saber que, além do mais, a pessoa acha que a gente não dá conta de lidar com isso é pior ainda. No fim das contas, a melhor maneira de proteger os sentimentos de alguém é mostrando respeito.

Meu chefe costuma falar que alguém que não tem coragem de ter as conversas difíceis não chega em lugar nenhum, e isso é totalmente aplicável aqui. Quando você faz ghosting, tudo o que você vira é mais uma pessoa que passou e foi embora, mais uma coisa que terminou no ar, mais um fantasminha na memória dos outros. Quando é direto, o relacionamento acaba, o interesse acaba, mas o respeito continua. Qual dos dois você prefere?


Concorda comigo? Dá um clique no coraçãozinho e recomenda para os amigos! Tá sofrendo com ghosting? Manda esse textão para a pessoa! Falei bobagem? Me escreve e me conta por quê! :)

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