Noites

Correr mas se mover milímetros. Força. Você consegue. Você alcança. O que? Força. Vamos. Corra. De quê? Não importa. Vá. Pra onde? Apenas vá.

Gola encharcada. Não era mais suor, mas lágrimas. Orou. Não; suplicou: faça parar. Doía fisicamente a dor subjetiva. Subjetiva? Podia tocá-la, apostava. Retomou a oração. Envergonhou-se. Pediu pelo-amor-de-deus. Não aguentava mais. Faça parar.

Dormiu, de exaustão. Secou. Acordou chorando.

****

Uma camada de fina espessura encobre a dor, que dorme. Ou finge dormir. Os dias passam misteriosamente tranquilos. Uma lágrima aqui, outra ali.

Então Algo acontece – não se sabe bem o que. Talvez nada acontece. E o nada quebra a frágil camada, que expõe a dor da ferida. É preciso nada para expo-la. Não sarou, afinal. Estava ali o tempo todo.

Regrediu. Terá que reiniciar todo o processo. Sorria, dizem. Viver? Fingir, é claro. A foto estampa um riso. É possível mentir sorrindo, descobriu.

Um dia você vai sarar, repetem.

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