Rotinas
Levanto. Tomo café, tomo banho, visto uma roupa engomadinha. Acordo. Não sou mais eu. O sapato machuca, anoto mentalmente que preciso de outro que me permita andar duas quadras sem gastar meia dúzia de band-aids.
Saio pro calor do dia. A primeira etapa é o ônibus. Me junto a outros rostos com sono, fatigados já nas primeiras horas do dia. As horas são as primeiras, mas o cansaço é de uma vida inteira. As reclamações já aparecem. Você viu o jornal ontem? Teve manifestação. Cheguei quase onze da noite, pararam o trânsito. Tem que manifestar mesmo. Só não pode atrapalhar a vida do trabalhador. Ah, isso é. A passagem vai aumentar. Mais? É absurdo, né? Tá cara, mas podia ser pior. É, agora a gente tem BRT, né. Esse ar é que não dá vazão. É esse governo que tá ruim. Tinha que acabar todos os partidos, não tem um que preste.
Pego o ônibus. Chego ao metrô. Junto a um exército de rostos todinhos iguais, me dirijo à minhoca de ferro. Estação lotada, mais do que o habitual. Esqueci que hoje vim mais cedo e quanto mais cedo, pior. Os trens sentido zona sul operam de forma irregular, a moça da voz eletrônica e suave avisa. Tá explicado. Hoje vai ser difícil.
No vagão, sou espremida entre muitos corpos que lutam por um espacinho minúsculo. Observo as pessoas. Muitas senhoras que não deviam mais trabalhar. Quase todas negras, no auge de seus sessenta e muitos. As conversas são sobre as patroas, os meninos, o preço alto das frutas. Ai, meu pé. Você cutucou minha costela. Não posso fazer nada, estão me empurrando. Calo. Não dá pra ler meu livro porque precisaria de espaço pra pelo menos pegar na mochila, que tá pesada. Tem marmita, material pra faculdade, material do trabalho. Casaco porque sinto sempre muito frio. Ih, a marmita. Rezo pra não virar. Saio do vagão, outro ônibus.
Chego no trabalho. Atrasei. Café, café, café. Já tô com fome. As horas se arrastam até o almoço, que é claro que virou. A comida da minha mãe não é mais como a de domingo. Tem reunião, tem caixa de entrada lotada. Tem socialização forçada. Tem que ser boa, garota. Você quer ser efetivada. Não quer? Preciso. Mas quer, não quer? Não sei. Por que? Não sei porque também. Não era o estágio dos sonhos? De quem? Seu, ué. De qual eu? Ai, não começa com essas divagações. Eu mudei de uns tempos pra cá. Você não tem tempo pra isso: não quer sair de casa, ser independente, ganhar dinheiro? Depois você faz o que quiser. Mas eu acho que quero isso. Então por que não tá feliz? Não tenho certeza dos motivos.
Tá errado isso aqui, conserta. Não tá bom, melhora. Me tranco no banheiro. Acho que não sou boa. Será que vão me demitir? Choro. Por que tá chorando? Não sei o que fazer. O que você quer? Não sei. Não tô bem, queria ir pra casa. Ainda faltam três horas. Senta lá e finge trabalhar. Engole o choro. É só isso? Não, tem mais. Guarda pra terapia.
Volto pra casa. Same old story. Pessoas se espremendo pra caber. No metrô, na vida. Rostos mais cansados ainda. A viagem parece mais longa. O cansaço é visível até nas mocinhas de 22 anos. Sou tão nova! Do meu lado, a mesma senhorinha da manhã. Me sinto mal por reclamar mentalmente. Ela precisa sentar; dou lugar. Ela agradece, surpresa. Seguro sua mochila. Não precisa, tá leve, minto. Agora consigo ler, achei um espaço. Pego no livro. Vidas Secas. Rio da ironia desse título.
Desisto do livro, a cabeça tá boa hoje não. Tem faculdade, a aula é chata. Vou atrasar, o professor faz presença no início da aula. Me resigno, não faz mais diferença. Tá acabando, penso. Tem TCC, lembro. Quero fazer pesquisa de campo. Não tenho tempo. Mas quero fazer, eu gosto do tema. Mas o cronograma é apertado. Penso na monografia, na prova de quinta-feira, nos projetos não realizados, no mestrado que quero lá fora. Nas dificuldades. Nas tarefas de amanhã do estágio. Tem muita coisa super dimensionada. Super? Não era pra ser. Não era, eu sei.
Saio do metrô. Tá anoitecendo, céu pintado daquele jeito que o instagram bem conhece. As nuvens se sobressaem, parecem adulteradas com aquele filtro de nitidez. Coração desacelera. Tava acelerado. Por que? Não sei. Não sei muitas coisas. Guarda pra terapia.
Penso que queria dormir. Pego o ônibus pra faculdade. Só chegarei às 23h. O que me dará 5h de sono. Não, tem trabalho, você não fez o de amanhã. Não vou fazer, não quero. Vale nota. Choro por dentro.
Em casa, café. Amanhã vai ser difícil.