Não sentimos mais

Cena 1:

O primeiro encontro foi melhor do que ela esperava. Tudo bem que ele não era tão bonito quanto na foto do Happen, mas 1) ele também gostava de The Office, 2) também gostava da fase da jovem guarda do Rei, e 3) não fez questão de pagar a conta sozinho. Se despediram no ponto de ônibus, ela subiu, sentou, pegou o celular, mais de cinco pessoas tinham comentado naquele #tbt do dia.

Cena 2:

“Acredite em mim, tudo vai ficar bem”. E aí prédios desabam. A cidade está explodindo. Peraí, apareceu um pinto aí? Foi muito rápido. Depois de quase três horas de filme, acaba Clube da Luta. Puta filme, né? Pega o celular. Dez emails. Depois vejo. Facebook, não tem nada, mas ih, olha esse vídeo. Que engraçado. Fulano, viu esse vídeo?

Cena 3:

Tá todo mundo postando a entrevista do Leandro Karnal no face. Escola sem partido é uma asneira sem tamanho, teria dito. Dá o play no youtube. Tem mais de uma hora, quase uma eternidade, mas vale a pena. Hoje as pessoas só morrem pela família e pelo celular, ele diz. “Agora um breve intervalo”. Roda a vinheta. É na internet, não tem comercial, mas isso aí vai demorar alguns segundos. Muda de aba, atualiza o facebook, lê três posts. Voltou a entrevista.

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Não sentimos mais. Momentos que seriam reservados para a maturação de acontecimentos recentes foram substituídos por atualizações de redes sociais. A garota não vai pensar no que o cara e suas nuances significaram. O outro talvez não chegue a conclusão do quanto Clube da Luta bateu no capitalismo. E eu provavelmente deixei escapar alguma coisa da entrevista.

Olhamos o celular na primeira oportunidade possível. Não sabemos mais esperar. Matamos o entre-coisas. Aquele tempo entre ir da padaria para casa. De casa para o trabalho. E não fizemos isso só com o transporte público. Também acabamos com a hora de dormir. E a hora de acordar. Olhar o celular muitas vezes é a última e a primeira coisa que fazemos. Acabaram-se os vácuos, os espaços, as esperas. A ansiedade acabou com os entretempos.

Tá, mas não é bem assim, depois eu penso nas coisas. Pode até ser. Mas o frescor do que a-ca-bou de acontecer não volta. Daquele abraço que talvez tenha sido mais demorado que o normal, da puta aula sobre etnocentrismo, ou até do vendedor shopping-trem-tudo-tem que fez você dar umas risadas. Que saibamos voltar a ficar com nós mesmos.

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