
in-diferenças
“Apaga a luz”, disse, amarga, Cristina. O contorno de uma persiana meio aberta batia-lhe no peito que Luís beijara minutos antes. “Porquê?”, indagou aquele pobre resquício de homem junto ao ouvido altivo daquela pequena figura feminina. “Não sei”, respondeu, de alma vazia. “Só te quero sentir.”
Luís aproximou-se e sentiu, ofegante, a — não tanto — respiração dela. Parecia estranhar aquele toque — o mesmo há anos. “Estás estranha”, acusou suavemente. “Cala-te e beija-me”, ordenou Cristina, incomodada por um silêncio quebrado a dois. Mas não fora Luís a partir aquele momento.
Cristina havia conhecido Jorge umas semanas antes. Uma outra persiana de um qualquer hotel barato na baixa lisboeta recebeu-os por duas horas. “O mais barato”, pediu Jorge ao tipo do balcão. “Podias fazer com que me sentisse menos puta”, pensou, mas não disse, enquanto ajeitava o cabelo no reflexo da porta do elevador. Jorge era baixo, careca, e há muito que a sua barriga acolhia massa adiposa a mais. Era rude, inconveniente e era dono de uma gargalhada estupidamente nasal. Cristina via nele o merceeiro da rua onde cresceu. Mas Jorge não tinha o coração do Sr. Ernesto de Alfama. Tinha um Mercedes, uma casa na Lapa e um escritório na Rua do Ouro. Mas não fora o carro ou o T4 ou a representação de uma marca internacional que a seduziu àquele hotel. Cristina queria sentir-se indiferente, pois era assim que já via o mundo.
Enquanto Luís notava a diferença na sua mulher de há oito anos, esqueceu-se de reparar na indiferença nela enquanto se levantou da cama, desceu as escadas até à cozinha, onde fumou o último cigarro da noite. Cristina nem o seguiu com os olhos. Focou um monitor com personagens vazias — como ela — sem uma história para contar e tentou adormecer aquela noite.
Luís subiu as escadas e reparou nuns olhos azuis avermelhados. “Estiveste a chorar? O que se passa contigo?” Sem limpar as lágrimas, Cristina balbuciou uma traição. “Mas quem é?” seguido de um “Não conheces!”, com um insistente “Mas quem é o gajo?”, com uma resposta gritada “Isso não é importante!”
Nos lençóis amarrotados ficaram respostas por dar. Naquela noite, ela sentiu que a indiferença que sentira com Jorge marcou a diferença no que Luís sentiu nela. E rejeitando as diferenças de ambos, Cristina partiu, igual a si, para uma casa diferente.