Eu universo

Eu sou aquelas estrelas que observo em quase todas as segundas-feiras quando faltam poucos minutos para as 23:00. Sou o vento que tanto me tranquiliza e outrora me irrita quando bagunça o meu cabelo. Sou as folhas secas que caem das árvores e também aquelas bem verdinhas que nelas permanecem. Sou o balanço e o azul das águas, a noite e o dia, as tempestades e os vulcões. Eu, você, todos nós: nós somos o Universo.

A explicação pra tudo isso está na ciência, mas para mim ser Universo sempre teve mais cheiro e cor de poesia que de pesquisas da Nasa ou do Carl Sagan. É que poucas coisas são tão bonitas quanto interromper um modo automático de existir e, de repente, num fim de tarde qualquer, se sentir parte de tudo o que existe a nossa volta. Eu, você e todos nós somos aqueles tons alaranjados que pintam o céu de vez em quando e aquelas flores que bravamente nascem nos cactos.

Somos muito pequenos no meio de tudo isso, mas somos gigantes justamente porque somos isso também. Somos imensos porque podemos contemplar a nós mesmos, porque podemos desbravar a natureza e, assim, caminhar em direção ao autoconhecimento. Eu, você e todos nós somos natureza, somos bicho, somos a mágica do Cosmos, de deus ou do que quiserem chamar essa coisa estranhamente bonita que é existir junto ao mundo.

Quando as coisas nesse pequeno planeta azul não vão muito bem, eu lembro do quanto tudo é bem maior que qualquer par de olhos já foi capaz de enxergar um dia. A vida fica mais simples do ponto de vista do infinito. E o infinito é mais simples do ponto de vista de quem a ele se integra por perceber-se universo também.

Talvez tudo isso que estou dizendo não faça o menor sentido pra muita gente, mas a vida quando assume forma poética não precisa mesmo escancarar suas ligações lógicas. Nós somos poeira das estrelas e a cada segunda-feira como essa, quando faltarem poucos minutos para as 23:oo, eu quero estar olhando para elas – e para mim – outra vez.