Muito obrigada depressão (?)

Pauline Saretto
Jul 21, 2017 · 4 min read

Quem me conhece hoje, mal sabe como eu era “xucra” quando criança. Aquele clássico (sempre acreditei que isso é um clássico): MENINA ENVERGONHADA QUANDO MAIS NOVA, DESABROCHA E SOLTA A FRANGA PRO MUNDÃO.

Como eu disse, quando criança eu era uma menina muito complicada, não falava, não interagia, brincava com as minhas irmãs e algumas amiguinhas. Lembro muito bem, de não sair de casa por ter medo do barulho dos carros. Passar um caminhão do meu lado era o sentimento mais tenso e assustador. O barulho me massacrava.

Lembro também, de ficar durante horas em frente ao rádio que tinha na minha casa, (se eu fechar os olhos posso ver ele bem em minha frente) me balançando de um lado para o outro, um pé no chão fazendo meu corpo se inclinar para o lado, outro pé no ar… o pé que estava antes no ar vai para o chão, então meu corpo se inclina para o outro lado e assim sucessivamente até cansar, ou sei lá o que acontecer.

Os anos se passaram, eu perdi o medo de andar na rua. Parei de ficar em frente ao rádio me balançando, a vida segue, eu “cresci”, me tornei uma menina artística/humanas, falante, sem papas na língua, segura de si e que gesticula demais. Praticamente um show de stand up, só que sem muita graça. Posso estar sendo petulante dizendo que sou engraçada… (alguns stand up são sem graça, então, tirem suas próprias conclusões).

Nesse vai e vem da vida, quando estava chegando na fase onde TUDO ACONTECE AGORA NESSE MOMENTO 1,2,3 VALENDO, sentei no meu sofá e senti que meu corpo estava pegando fogo, mas não tinha fogo por perto, e nem era um dia quente. Esse fogo dentro de mim era a ansiedade, a depressão, o cansaço, a dúvida, o medo, a felicidade (sim ela também queima), a vida.

Sim, eu estava com depressão, sim, eu estava tendo uma crise de pânico, sim, eu não sabia o porquê. Foi, e ainda é uma luta diária manter a mente e o corpo sãos. Não vou me alongar sobre esse assunto de como é viver com a depressão etc etc… Pra quem me conhece é difícil acreditar que eu passo por esse tipo de coisa.

- Ué, você Pauline? Mas você é tão feliz!

É minha gente, felicidade, amor próprio, segurança também maltratam a gente.

Eu sei que mesmo sendo uma pessoa muito feliz, aberta, extrovertida, que não era “o padrão de pessoa que tem isso”, eu PRECISAVA passar por isso.

Por mais que eu saiba em sua grande maioria, o caminho que quero seguir, precisei passar por isso tudo pra aprender mais sobre mim. Infelizmente ainda não é uma batalha vencida, pois tomo remédios diários e tenho ainda que lidar com essa bicha. Só que não é mais uma bicha de sete cabeças. Pode ser que agora ela agora só tenha umas três (rs).

Hoje eu sei, anos depois, que, a menina xucra que tinha medo de sair de casa não acabou quando eu tinha seis anos e comecei a ir regularmente pra escola. Ela ainda está aqui dentro de mim, a cada caminhão que passa ao meu lado a mil por hora, fazendo um barulho do caralho, me assustando e me deixando com medo. Sim ela esta aqui. Anos eu passei andando pelas ruas e não percebendo que, aquela menina sempre esteve aqui, sufocada.

Essa dor e o pânico fizeram compreender melhor a pessoa que eu sou. Que posso ser a mulher (sim hoje sou uma mulher), mais incrível do mundo, mas ainda vai ter um ser de quatro anos de idade dentro de mim, se debatendo e implorando para o pânico passar, para o medo ir embora, para o caminhão barulhento sumir na próxima esquina e nunca mais voltar.

A dor e o pânico também me fizeram entender que aquele meu jeito estranho de balançar em frente ao rádio é essencial. Hoje conheço o meu corpo, e toda vez que me sinto em pânico, sem perceber estou me balançando de um lado para o outro. Me balançar de um lado para o outro me acalma, e durante anos fiz isso sem perceber o quão importante aqueles dias em frente ao radinho foram especiais.

Nesse exato momento da minha vida, eu sei que a dor me ensinou muito mais do que a alegria. Foi por causa dela que me conheço quase que por completo, que ligo pontos dentro de mim que antes não faziam sentido.

Nesse exato momento, e quando eu digo exato, é o exato em que escrevo esse texto, estou me balançando de um lado para o outro, acho que tentando me acalmar… Hoje eu conheço tanto o meu corpo, que posso dizer exatamente o que vai acontecer comigo daqui a dez minutos. Daqui a dez minutos, bem…

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    Pauline Saretto

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    meu caminho até aqui.