Escravos do celular

Não consegue viver sem celular? Então você precisa desse texto.

Acredito que todos nós já passamos pela desconfortante situação de estarmos em uma conversa, e de repente seu interlocutor retira um celular do bolso e começa a chacoalhar os dedos e dividir a atenção entre o aparelho e as suas palavras. Veja a constatação de Jonathan Rowe na década de 90:

No final da década de 1990, em meio ao boom da alta tecnologia, passei algumas horas num café na área dos teatros de São Francisco. Observei uma cena recorrente lá fora. A mãe está amamentando o bebê. Os garotos estão beliscando seus bolinhos, em suas cadeiras, com os pés balançando. E lá está o pai, ligeiramente reclinado sobre a mesa, falando ao celular. Deveria ser uma “revolução nas comunicações”, no entanto aqui, no epicentro tecnológico, os membros dessa família estavam evitando os olhares uns dos outros.

Passando mais de uma década podemos perceber que essa realidade ficou ainda mais assustadora. Hoje em dia não vemos apenas um aparelho e uma pessoa desconectada com a realidade em sua volta, mas sim uma centena de pessoas no mesmo ambiente visitando outros lugares e outras sensações, abdicando daquele momento, daquelas pessoas e daquela convulsão social de carne e osso. É quase uma alternativa ao tédio do ambiente.

No auge da epifania tecnológica as relações estão cada vez mais reduzidas a pequenas teclas e telas. As famílias se conversam por aplicativos, os casais discutem relações pelo celular, os amigos se confraternizam com mensagens virtuais. O wifi se tornou obrigatório em qualquer estabelecimento comercial, as pessoas e o motivo de estar ali já estão esvaziados pela conectividade social. Óbvio que o encurtamento da distância via celular possui o seu ganho infinitamente imensurável, mas será que precisamos estar conectados 24 horas por dia? Será mesmo que a vitrine virtual é mais interessante que os olhos nos olhos? Basta dar uma voltinha no metrô e perceber que a maioria recusa o contato visual e prefere o brilho na telinha e o mundinho virtual de notícias inúteis.

Chegamos ao cúmulo de trocar o contato visual na paquera por aplicativos de celular, como por exemplo, o Tinder. Pra você que assim como eu até dias atrás não sabia o que era isso, o resultado é assustador. O Tinder é um aplicativo que você carrega com suas características. Ele traça pessoas em um raio de distância e cruza as suas informações com as características procuradas e voilà; ali estão todos os pares que se identificam pela escolha da máquina — ou seja, as pessoas nem sequer escolhem mais as paqueras, decidem entregar isto nas mãos de um app qualquer. Com um toque literalmente as pessoas escolhem numa vitrine as pessoas com quem desejam se conectar — claro que a estética norteia a escolha. Na era da modernidade plástica, nem os instintos primitivos do cortejo passam imunes.

O desespero toma conta de nós quando esquecemos o celular em casa, se a bateria acaba, ou se o Whatsapp sai do ar por algumas horas. Sabe porque? Porque perdemos a capacidade de interagir à moda antiga. A pressão pela conectividade em tempo real tem nos roubado a capacidade de apreciar a vida com suas surpresas, com as notícias boca a boca, com as visitas de aniversário ou o estreitamento dos laços familiares.

O pensamento do sociólogo Zygmund Bauman é a síntese da ferocidade virtual atual — Dentro da rede, você pode sempre correr em busca de abrigo quando a multidão à sua volta ficar delirante demais para o seu gosto.

Paulo Sales ©


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