A inconsistência de Ana Manta Oliveira Raio
Partes 1 e 2
Para abreviar as coisas usava de um pragmatismo feroz. Insultuoso. Demasiado frontal. Dizia as coisas mais escabrosas a qualquer pessoa que se cruzasse no seu caminho. Isso acontecia-lhe frequentemente enquanto andava pelas ruas. Trabalhava no centro da cidade onde as ruas são muito movimentadas. Muita gente a circular. Muita pressa de alguns. Pressa nenhuma de outros. E estes que não aparentam pressa nenhuma são os piores.
Gente que não sabe para onde vai, ou se sabe não tem pressa nenhuma de lá chegar. Divagam pelos passeios. Andam aos esses, como se estivem bem bebidos. Entopem passeios. Interrompem o normal fluir das ruas. Tinham que ser alertados para isso. Alguém tinha que os chamar à atenção para o problema que criavam aos outros.
Era essencialmente um problema de fluidez. De encaixe entre espaço e volume. E o volume são as pessoas que circulam. E pessoas que circulam sem direção ocupam um volume maior. Mais denso. Não sabia nada sobre física, mas tinha a certeza que corpos em menor velocidade ocupavam mais volume. Pelo menos era a forma que Ana Manta Oliveira Raio encontrava para fazer sentido dos fluxos assimétricos que encontrava nos vários passeios por onde passava a caminho do escritório. Os encontros, os esbarramentos em pleno passeio resultavam quase sempre em insultos bárbaros. Em empurrões. Era violento. Era violento de se ver e de se ouvir. E o mais estranho era que esta violência tinha origem numa mulher estupidamente bela. De uma beleza tocável, próxima. Mas que simplesmente enlouquecia nestas situações.
De resto era uma pessoa cândida. Tinha já ponderado a possibilidade de simplesmente deixar de andar pelos passeios. Ou então deixar de trabalhar naquela zona da cidade. Ir para outro local menos povoado, ou pelo menos mais ordeiro nos passeios. Os países nórdicos, que não conhecia, aparentavam ser mais ordenados. Bastava que existissem corredores de velocidades variáveis nos passeios. Se os havia nas ciclovias, porque não nos passeios. Nunca tinha percebido este tratamento desigual. Bastava fazer as contas. Quantas pessoas andam a pé e quantas andam de bicicleta? Pensava nestas coisas quando estava furiosa. Não controlava este tipo de pensamentos que podiam ir da simplicidade de uma faixa para peões rápidos ao massacre físico de toda a gente que lhe atrasasse o passo. Imaginava-se em formato super herói com raios a saírem das mãos e pessoas a serem projectadas para as vias mais lentas. Em média tinha entre 3 a 4 encontros físicos no caminho que fazia até a porta do escritório. O número de palavrões era crescente na sucessão de encontrões. Até que chegava à porta e a abria.
Entra e diz bom dia ao porteiro que é alguém que cuida da porta. Não do material em que a porta é feita, mas apenas do objecto e da sua função — separar o exterior do interior ou vice versa. Portanto, o porteiro está para lá da essência do próprio objecto porta e para cá da sua função. Não sabia porquê mas lembrava-se sempre disso. Nunca tinha partilhado este pensamento com o porteiro, que era porteira na altura em que alugou o espaço onde hoje trabalha. Alguma coisa tinha mudado certamente. Nunca lhe tinha perguntado nada. Simplesmente houve um dia em que lhe pediu para o tratar por António Lima e já não por Carolina Sousa. Tirando isso tudo se manteve como era. A porta continuava a ter o seu funcionário, ou funcionária. E continuava a ser guardada e a sua função preservada. Mas alguma coisa tinha mudado.
Na altura tomou nota mental do pedido. Apagou as referências que tinha da pessoa, reiniciou o processo para uma nova identidade e registou-o no index mental que a ajuda a classificar pessoas. Neste aspecto, Ana Manta Oliveira Raio é muito metódica. Utiliza esta estratégia para poupar energia. Energia física que é, no caso dela, essencialmente mental. É o seu trabalho. Por isso poupa. Gosta de dizer que tem uma pegada ecológica curta apesar dos litros de gasóleo que a CBR 4000 gasta. É da pressa. De querer chegar a horas. E o facto de a porta se abrir e fechar sozinha, parecendo que não, poupava-lhe uns segundos todos os dias. A caminho do elevador era comum questionar uma segunda vez o papel da porteira. Se a porta se abria e fechava sozinha porque razão Carolina Sousa tinha o cargo de porteira. Havia coisas que não faziam sentido e raramente se pode fazer alguma coisa por elas. Não seria mais fácil ser vigilante.
O ócio proporcionado pela espera do elevador é uma fonte inesgotável de pequenas interrogações.
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