Amadeus Nuclear

Amadeus Nuclear ouvia Chopin quando decidiu estampar a merda do carro contra uma parede. Tinha o cinto posto. As mãos no volante. Os olhos na estrada. Apeteceu-lhe. Nunca lhe acontecia nada. Nada. Alguma coisa aconteceria certamente se se deixasse ir contra aquela parede ao fundo. Um muro com uns 2 metros de altura pintado de branco que acariciava uma curva lenta. Ninguém alguma vez se tinha despistado ali. Era uma curva demasiado lenta, demasiado fácil. Seria o primeiro.

Amadeus Nuclear ia estrear aquele muro. Ia acontecer-lhe uma coisa. Alguma coisa. Provocada, certo, mas sempre seria alguma coisa. Tinha acabado a espera. Já não podia confiar mais na providência. Teria que ser ele a fazer qualquer coisa. Confiara em entidades superiores mas como tinha percebido, delas não se pode esperar grande coisa. Foi assim que decidiu estampar-se. Aquela reta poderia ser a sua última reta. O carro tinha airbags, ABS e mais alguns sistemas seguros que o iriram segurar contra imprudências, inconsciências, negligências. Os sistemas estão sempre alerta. Sempre. O ABS não era excepção. Mas por mais alerta que estivesse, Amadeus Nuclear estava ao volante e estava decidido a seguir em frente numa reta que era cada vez mais curta, menos reta, mais curva.

As curvas iniciam-se ainda antes de o serem. Extendem-se sobre as retas como braços enormes que moldam lentamente a forma de reta em forma de curva. Amadeus Nuclear mantinha as mãos no volante. Mantinha a mesma velocidade. Sentia os dedos a apertar o volante. Quase que via a pele branca, semi-transparente, com que ficava sempre que apertava alguma coisa com demasiada força. Não precisava olhar para os dedos para lhes sentir a cor.

A velocidade mantinha-se constante. O que restava da reta era tudo menos constante. Era menor, menor, menor, até não poder mais ser menos e a inevitabilidade do muro era isso mesmo — uma inevitabilidade. Não podia deixar de ir contra o muro. A decisão tinha sido tomada. O muro estava à sua frente. A estrada fugia sozinha pela esquerda. Amadeus Nuclear iria em frente. Sentiu a primeira roda a sair do alcatrão e aquele desengonçar ligeiro seguido de uma quebra do som constante que quatro rodas fazem em conjunto no alcatrão. Aquele zeeeeeeeee que se ouve quando se passa do alcatrão para uma estrada de empedrado.

Aquele som brusco que muda o ritmo. Foi isso que alertou Amadeus para o início da inevitabilidade. Já não podia agarrar o ar. Não se segurava a nada. Estava em queda livre. O muro seria o seu chão e o reforço sonoro da segunda roda a sair do alcatrão e a entrar em terra de pedras confirmava o desenrolar do fio. Agora eram duas rodas a quebrar o som constante. Tinha duas rodas fora de estrada. Duas em estrada. E um muro branco à frente. E o som assustava. E o desengonço do carro também. Aquele leve balanço que faz com que abanemos a cabeça e os ombros ligeiramente. Se fossemos no banco de trás veriamos o topo da cabeça da frente a abanar um pouco de um lado para o outro. A duas rodas que restavam também sairam do alcatrão. Eram quatro agora. O som tornou-se mais uniforme. O piso era o mesmo para todas as rodas. O som era contínuo, idêntico ao som anterior da borracha no alcatrão. Quando se encontra uma base, um terreno uniforme, somos logo levados a uma certa uniformização.

Com as quatro rodas em terreno desconhecido, terreno de medo para rodas de alcatrão, era tempo da primeira deformação de chapa. Do estilhaço dos farois da frente. Do encolhimento do pára-choques. A desaceleração. O Airbag. O movimento. Os vidros. A provável perda de consciência. A insconsciência. O silêncio. O cheiro a óleo. Outros carros que param. As sirenes que se começam a ouvir. Olhos que espreitam pelos vidros partidos. Mãos que tentam abrir portas. Vozes que falam contigo. Que afastam o que resta do airbag. Que te puxam a medo. Que te tocam a medo.

Teria sido melhor fazer a curva.

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