Tantos Outonos



caía em azul
tudo o que era azul
e mais e mais e mais
azul
como os dedos das
adolescentes japonesas
em azul claro e profundo
em azul
como um buraco na parede
céu em arco por cima
de quem dorme na rede
em azul tudo caía
as saias os sonhos
os cílios das prostitutas
panamenhas
azul neve sobre os ombros
das estátuas dos generais
que ninguém conhece
os pés dos pombos
os lábios congelados
caía tudo em azul
o bando de gansos
a voar rumo ao sul
os olhos dos gatos
as gotas de orvalho
as folhas no chão do outono
não, essas não, essas são
alaranjadas
contrastam o azul
por oposição
e todo o resto em decomposição
tudo caía em azul
mesmo o que não era
ou fora ou estivera
muito tempo à espera
caía em azul
mesmo aquilo tudo
que já deixara
há muito tempo de ser
tão azul.