Luedji Luna e Muniz Sodré: diálogos sobre a existência negra na cidade

Paulo Muniz
Sep 5, 2018 · 3 min read

O pensamento nagô, apresentado no prólogo do livro Pensar Nagô pelo jornalista e sociólogo Muniz Sodré, nos inflexiona a uma perspectiva contemporâneo-afro-centrada e diaspórica da sociedade brasileira, em que o termo Ocidente, enquanto subproduto eurocêntrico do homem plenamente humano, surge como política de colonização cultural e civilizatória a partir de um imperialismo que institui o seu domínio sobre o outro, daqueles sujeitos não tão plenos, que não são gente. Sendo assim, a discussão cerne proposta pelo autor, com base em uma construção teórica descolonial, procura responder ao o que é considerado humano, questionando a lógica humanista racional europeia e as suas reverberações na construção de muros filosóficos que enclausuram os corpos diferentes sob a lógica de subserviência à integridade branca.

A partir do curta-metragem Um Corpo no Mundo, de Luedji Luna, assim como o seu primeiro álbum de estúdio lançado em 2017, é possível traçar um esboço acerca do que se trata a lógica genocida evidenciada por Muniz Sodré e que é retratada explicitamente no decorrer das filmagens. Situado na cidade de São Paulo, o videoclipe narra a história da própria cantora a partir de um olhar sobre si mesma, do contato com os imigrantes africanos da cidade e a busca pela identidade por meio da ancestralidade. A proposta emergente apresentada pelo conceito da obra é uma concepção da realidade do corpo negro na sociedade brasileira: um corpo marginalizado, diferente, que não é gente e que é híbrido. A hibridez do corpo negro no espaço da cidade cinza e dos muros ranzinzas ruge devido ao não-pertencimento ao espaço, por uma inconcretude, por habitar em um não-habitar, uma travessia flutuante para a morte iminente da própria existência. A existência do corpo negro na cidade é um não-ser, na qual o caos, a desigualdade social e o ir-e-vir das pessoas configuram-se hialinos, inconsistentes e periculosos na fitagem dos olhares brancos nas esquinas. O não-pertencimento ao espaço é uma evidência na qual ocorre a incongruência cultural, de asfaltos e semáforos que são brancos e impedem a passagem de corpos estranhos. Até mesmo os corpos negros-brancos, como narrado por Fritz Fanon em Peles negras, máscaras brancas, caracterizam a capacidade do imperialismo europeu de ceifar aquilo que se foi e que se é, além do contato com a consciência da própria experiência universal-singular no mundo, em uma multidão de corpos configurados sob a ótica de um humanismo racista.

A procura pela identidade negra, retratada por Luedji Luna no curta-metragem, evidencia também a problemática do negro atual: em uma sociedade na qual reforça-se a desigualdade social pela hierarquização de raça, torna-se imprescindível o reconhecimento de uma ação afirmativa, de uma política de um novo discurso no qual a filosofia afro surge como uma produção de sentido à própria existência do sujeito no mundo. Portanto, o perigo nas esquinas, apresentado no clipe de forma personificada, é o permanente estado de atenção que reverbera-se pelo corpo e que se faz presente, consequentemente, na forma de agir sobre o espaço da cidade: movimentos cautelosos e olhares atentos. Ser reconhecido enquanto negro nos espaços é ser-corpo-sem-vez, ser evidência perigosa, não demarcada somente por estereótipos, mas estabelecida também enquanto existência factual de um mundo no qual se reconhece a diferença natural, mas se abomina o diferente.

Nos trechos finais do curta, Je suius ici, ainda que não queiram não representa, portanto, do ponto de vista político de existir, a (r)existência aos espaços consolidadamente brancos, a procura de uma ressignificação nos lugares que foram historicamente construídos com o intuito de serventia negra perante o branco, da perpetuação da cultura moral cristã eurocêntrica, do padrão fenotípico característico normal, das formas de existir consolidadas, de uma delicadeza branca e da intocabilidade da sociedade que exige que um corpo negro se adeque e aceite a sua própria inexistência.

    Paulo Muniz

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