O que pode o corpo?

Ser um corpo-no-mundo é ser uma intenção, não somente um mecanismo de ligamentos nervosos aferentes e eferentes, uma relação estímulo/resposta, como visto na fisiologia clássica cartesiana, mas um complexo de significações vivas em um mundo situado e sócio-historicamente construído. Se sou um corpo no mundo, como posso somente o ser como objeto? Não estou no mundo como um acessório à parte da vida ou da natureza, sou um corpo como intenção em direção aos objetos em-si, e minha construção no mundo universal-singular é uma relação indissociável: sou mundo, um ser vivo e fenomenal em um campo de possibilidades.
A minha ininterrupta construção no mundo objetivo se dá pela via da percepção: estou lançado a uma realidade, a um contexto social, em uma estrutura sócio-espacial que interpela uma associação ambiente-sujeito por meio dos sentidos. Desde o nascimento, somos convidados a participar de um mundo dado a partir da nossa existência, ou seja, a um corpo que se faz no mundo, a partir do mundo, na multidão. Experimentar é, portanto, conhecer, adquirir sínteses, e tal conhecimento se apresenta no corpo como um hábito, uma praticidade necessária para a sobrevivência. Esta prática é realizada por um corpo que é uma unidade, não por uma subjetividade que sobrevoa as relações e que dá instruções para um corpo enquanto máquina.
Sendo o corpo espaço-tempo, ele não é um pensamento pelo qual se move, como visto no dualismo cartesiano, mas um corpo complexo de matéria em movimento, uma perspectiva, um engajamento no todo da situação. Se sou um corpo que tenciona, como o outro, o qual trato ser um objeto, pode também não tencionar? O outro é, portanto, minha completude, aquilo com o qual eu sou, não somente um objeto para ser observado de forma blasé, mas a mim mesmo: um sujeito que age, que sente, que se faz no mundo e que é um corpo.
Em uma sociedade cada vez mais inserida em uma concepção cartesiana de corpo, é necessário que procuremos novas formas de ressignificação a partir do corpo e não sobre o corpo: somos corpo em completude e primazia, existimos enquanto corpo. Somos espaço, somos nó de significações vivas e diferentes construções de corpo: trans, não-binário, homossexual, heterossexual, bissexual, branco, preto e amarelo. No fim, somos isto: corpo enquanto plural, social e bicho.
