O que pode o corpo?

Paulo Muniz
Sep 2, 2018 · 2 min read

Ser um ​corpo-no-mundo é ser uma ​intenção​, não somente um mecanismo de ligamentos nervosos aferentes e ​eferentes​, uma relação ​estímulo/resposta​, como visto na fisiologia clássica cartesiana, mas um complexo de significações vivas em um mundo situado e sócio-historicamente construído. Se sou um corpo no mundo, como posso somente o ser como objeto? Não estou no mundo como um acessório à parte da vida ou da natureza, sou um corpo como ​intenção em direção aos objetos ​em-si​, e minha construção no mundo ​universal-singular é uma relação indissociável: sou mundo, um ser vivo e fenomenal em um campo de possibilidades.

A minha ininterrupta construção no mundo objetivo se dá pela via da ​percepção​: estou lançado a uma realidade, a um contexto social, em uma estrutura sócio-espacial que interpela uma associação ​ambiente-sujeito ​por meio dos sentidos​. Desde o nascimento, somos convidados a participar de um mundo dado a partir da nossa e​xistência,​ ou seja, a um c​orpo que se faz no mundo​, ​a partir do mundo,​ na ​multidão​. Experimentar é, portanto, ​conhecer​, adquirir ​sínteses​, e tal conhecimento se apresenta no corpo como um ​hábito​, uma praticidade necessária para a sobrevivência. Esta prática é realizada por um corpo que é uma unidade, não por uma subjetividade que sobrevoa as relações e que dá instruções para um corpo enquanto máquina.

Sendo o corpo espaço-tempo, ele não é um pensamento pelo qual se move, como visto no dualismo cartesiano, mas um corpo complexo de matéria em movimento, uma perspectiva, um engajamento no todo da situação. ​Se sou um corpo que tenciona, como o outro, o qual trato ser um objeto, pode também não tencionar? O outro é, portanto, minha completude, aquilo com o qual eu sou, não somente um objeto para ser observado de forma ​blasé​, mas a mim mesmo: um sujeito que age, que sente, que se faz no mundo e que é um corpo.

Em uma sociedade cada vez mais inserida em uma concepção cartesiana de corpo, é necessário que procuremos novas formas de ressignificação a partir do corpo e não sobre o corpo: somos corpo em completude e primazia, existimos enquanto corpo. Somos espaço, somos n​ó de significações vivas e diferentes construções de corpo: trans, não-binário, homossexual, heterossexual, bissexual, branco, preto e amarelo. No fim, somos isto: corpo enquanto plural, social e bicho.

    Paulo Muniz

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