Sobre Matrix, Black Mirror e Black Friday
Aconteceu uma coisa muito Black Mirror comigo hoje.
Desde terça estão passando as férias aqui na roça meu primo, a esposa dele e os dois filhinhos pequenos.
Normalmente todas as propagandas que aparecem pra mim nas internets são de cervejas, livros, filmes e uns sertanejos universitários.
Chegam duas crianças na minha casa, com um dia e meio que eles tão aqui, todas as propagandas que aparecem pra mim parecem o intervalo do Bom Dia e Cia.
E com o detalhe de que só eu acesso o meu computador e não ter feito nem uma pesquisa, nada sobre crianças nesses últimos dias (inclusive porque uma vaca comeu o cabo que mandava o sinal pra minha casa e fiquei uns dois ou três dias sem internet).
A única ligação de tudo é que a gente tem uma smart TV dessas, que de smart não tem nada e vive travando e precisando reiniciar e reconectar o tempo todo, e ontem a noite o Biel assistiu uns desenhos na Netflix antes de dormir.
Eu não sou exatamente um desses “o Steve Jobs usava uma fita adesiva em cima da webcam” e essas coisas todas, mas eu sei muito bem que no mundo onde a gente vive, se uma coisa não custa dinheiro (tipo youtube, facebook) a gente paga de alguma outra forma.
A gente não lê os termos de contrato dos aplicativos, redes sociais e muito menos daqueles testes que a gente ama responder no facebook e compartilhar pra todo mundo quem é nossa cara em Game of Thrones.
Sem precisar hackear o nosso computador ou invadir as câmeras dos nossos telefones, os algoritmos que calculam essas propagandas conseguem perceber pelas mudanças do nosso comportamento na rede que tem criança passando férias na Fazenda Ipê, zona rural de Itambacuri, Minas Gerais e botar o My Little Pony no meio do meu vídeo sobre a extinção em massa de espécies que o ser humano está causando nos últimos 115 anos.
E isso não tem nenhum funcionário do Google ou do Zuckerberg na frente de uma telinha apertando um botão dizendo que propaganda eu devo ver. São só os computadores deles cruzando informações que eu concordei em compartilhar com eles porque afinal de contas, sem Facebook e Youtube que eu não vou ficar não é mesmo?
A gente não para pra pensar sobre isso, mas a gente tá em contato o tempo inteiro com uma forma de tecnologia que sabe um bocado sobre a gente e que toma decisões que influenciam a nossa vida o tempo todo.
Não que eu ache o fim do mundo, já que vou ser bombardeado por propaganda, pelo menos é propaganda que me interessa.
Mas não deixa de dar um arrepio na espinha pensar o quão virtuais as nossas vidas reais estão se tornando.
É engraçado que a gente se acostumou tanto com essa coisa de tecnologia nas nossas vidas que acha que estamos muito distantes do futuro de carros voadores e robôs dos filmes de ficção cientifica, mas volta e meia tomamos um choque de realidade e percebemos que a matrix tá logo ali.
A única diferença é que não vai precisar de uma super revolução das máquinas, a gente vai se conectar voluntariamente, porque afinal de contas é muito mais confortável e não tem muito o que fazer não é mesmo?
