Série B, o torneio da desigualdade

Torcedor do Inter chora queda para a Série B. Com R$ 60 milhões, o retorno é garantido.

Por Paulo Augusto

Ao longo de muitos anos, especialmente nos anos 1980 e 90, a segunda divisão era tido como um inferno para os grandes clubes brasileiros. Viradas de mesa eram constantemente promovidas sempre que um dos considerados “grandes” estivesse ameaçado. A era dos pontos corridos, iniciada em 2003, desmistificou esse cenário. Ir para a Série B, ainda que ninguém queira, deixou também de ser o fim do mundo. Ao menos para esses “grandes” — que disputam a competição num sistema de cotas absolutamente desigual, transformando a competição numa injusta disputa entre uma Ferrari e inúmeros Fuscas.

Nesta sexta-feira, 12 de maio, se inicia mais uma edição da Série B do Campeonato Brasileiro. O Internacional de Porto Alegre, 3 vezes campeão da Série A (1975, 76 e 79) é o “grande” da vez na competição. Também na disputa, outros times tradicionais do futebol brasileiro, como Ceará, Figueirense, Goiás, Guarani (campeão da primeira divisão em 1978), Juventude, Náutico, Paraná e Santa Cruz.

O que veremos a partir dessa data é um modelo de distribuição de receita que praticamente concede ao time de Porto Alegre a garantia de uma das quatro vagas disponíveis para o retorno à elite. A outra, pelo menos motivo, deveria ser dada como certa para o Goiás. Mas a julgar pela incompetência do clube na temporada passada (que ficou longe do acesso), essa certeza deixa de existir. Vamos entender o porquê disso tudo.

Náutico e Santa Cruz disputam 3º lugar no Estadual. Em 2017, crise e estádios vazios

A partir deste ano, a distribuição de cotas para os clubes da Série B passou a ser definida por mérito — ou seja, de acordo com a classificação do time na temporada anterior. Em 2016, todos os clubes “normais” (ou “não-grandes”) da segunda divisão receberam de receita de televisão o mesmo valor, R$ 5,2 milhões. Este ano, o Figueirense, rebaixado em 18º lugar na Série A, receberá R$ 6,4 milhões; o Santa Cruz, 19º, R$ 6,2 milhões; o Náutico, 5º na Série B, fica com R$ 5,8 mi; Boa, Guarani, ABC e Juventude, que subiram da terceira divisão, recebem, juntos, o mesmo valor: R$ 4,1 milhões. Em tese, tudo muito bem distribuído, valorizando o desempenho das equipes e não permitindo que a distância entre a maior e a menor receita seja absurda.

Entram em campo, no entanto, as duas exceções à regra: o Internacional e o Goiás — que, juntos, transformam o Campeonato Brasileiro da Série B numa das competições mais desiguais que se tem notícia. Esses clubes possuem um contrato à parte com a TV Globo, detentora dos direitos de transmissão. O time de Porto Alegre vai “padecer” na segundona tendo a mesma receita que recebeu na temporada passada na primeira divisão: R$ 60 milhões. Ao Goiás, que tem um contrato mais “modesto”, assinado em 2015 e válido até este ano, caberá o valor de R$ 35 milhões.

Campeão goiano, o Goiás é o outro privilegiado com uma cota de R$ 35 milhões

O que isto significa? Juntos, Internacional e Goiás recebem R$ 95 milhões. Juntos, os outros 18 clubes da Série B recebem R$ 93,5 milhões. Agora, falando sério: jura que a Série B é formada por 20 times disputando quatro vagas? Não à toa, nunca aconteceu de um clube “grande” que caiu para a segunda divisão não conseguir voltar à Série A imediatamente no ano seguinte.

Enquanto isso, o abismo que separa os clubes privilegiados por negociações injustas dos demais apenas aumenta, numa progressão geométrica. Eventualmente nos permitimos a dizer frases como “o Guarani já não é mais a mesma”, ou “o Náutico está realmente quebrado, vai se acabar”. A tendência, meus caros, se algo não for feito, realmente é só existirem os clubes que não estão na ponta desse iceberg. O restante, a maior parte, estará invisível, afogada no fundo do mar.

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