Íris

Sonhei com um quadro de Van Gogh. Eu estava num museu observando-o com dedicada atenção. Era um quadro bonito: muitas flores, sempre representadas por borrões num mundo em que borrões comunicam mais beleza do que a nítida realidade. Era esse, afinal, o mundo de Van Gogh. Não se pode negar a genialidade do desgraçado, goste ou não. Isso é o que têm de grandioso esses malucos: parece que em cada pincelada imprimem ao quadro uma sensação pesadamente palpável e verdadeira. E a maioria de nós segue a vida sem conseguir comunicar aos outros como se sente. Na etiqueta ao pé do quadro leio seu nome: Irises. Em português seria algo como Lírios. Devo confessar que me seduz mais a versão da etiqueta do museu. O motivo é óbvio: me lembra do nome dela. E isso acontece justo hoje, no dia em que ela vai para tão longe.

Como se viesse me acompanhando desde o início do sonho e sem gerar surpresa alguma, algo típico de toda realidade onírica, o próprio Van Gogh aparece do meu lado e fica ali parado contemplando sua obra e fumando um cachimbo, o infeliz. Despende um tempo coçando a barba, com um aspecto ranzinza enquanto olha minuciosamente para seu quadro. Seu olhar denuncia que possui críticas à pintura, mas o orgulho que sente supera-as todas. É humano, afinal. Enxerga-se como incapaz da perfeição. Quando me nota ao seu lado, lança mão de toda a intimidade que minha mente sonhante lhe concedera e se aproxima de minha orelha, dizendo-me com tom otimista que eu não ficasse preocupado, que há muitas Íris num campo. E que além das Íris há outras flores, como girassóis, orquídeas, verbenas, tulipas, açucenas. E que são muitos os campos floridos, não havendo motivo para dor. A vida cumpriria com seu papel de me atirar a cada um deles em seu devido tempo. Me diz tudo isso como amigo, querendo fazer com que eu esqueça de uma única Íris que me havia raptado a atenção. E o cheiro do seu tabaco perfumado cola na minha pele causando um calafrio do mais puro asco e fazendo com que eu me afaste um passo.

A resposta veio, não sei se segundos ou minutos depois — era um sonho, afinal de contas. Tomo o cachimbo de sua mão e dou uma longa e preguiçosa cachimbada, olhando-o fixamente nos olhos. Ao notar o espanto no rosto do artista, não faço menção de recuar: aproximo-me da única orelha que o delinquente optou por manter presa à cabeça e sussurro-lhe que eu não busco outras íris, ou flores de qualquer espécie. Digo-lhe que minha procura não era pelos campos floridos daqui ou de qualquer lugar do mundo. Ignorando sua reação, aproximo mais minha boca de sua orelha, dramaticamente devagar, até que meus lábios encontram a carne murcha e felpuda de seu trago. Conto-lhe, por fim, com a voz carregada de ar, que eu espero para reencontrar uma Íris de pétalas negras, pois foi ela a única capaz de despertar em mim toda a primavera.