Completo?

Há mais de quinze anos que ele está no negócio. Eu, que não sei o que é fazer a mesma coisa por trinta minutos corridos, quebro a cabeça tentando imaginar o que é isso. A mesma precária carrocinha, precisamente na mesma esquina, desde que eu era criança. Perdi a conta de quantas vezes fui lá para comer um cachorro-quente. Em nenhum desses encontros trocamos mais palavras do que o estritamente necessário para que se concluísse a negociação: Quanto está? Quatro reais. Aqui está. Completo? Sim. Obrigado. Obrigado. Apesar da objetividade digna de anúncios baratos em classificados de jornal (aqueles do tipo “Alugo ap centro 40m²”), sempre houve espaço para mútua generosidade, o tipo da coisa que cantam os homens em silêncio sabe-se lá com que garganta. Um dia desses, depois de uns anos que passei fora, voltei a encontrá-lo. Ele conservava os modos e os métodos sempre simples e eficazes. Dessa vez resolvi perguntar-lhe se vivia daquilo, daquele negócio somente. Respondeu-me imediadamente que não, que eu estava muitíssimo enganado. Disse que vivia de histórias, de alegrias e de amigos. Ganhava a vida pelos sorrisos, pelas dúvidas, pelos pensamentos e inquietudes. Não vivia daquilo, nem para aquilo. Aquela barraquinha, a mesma que me parecia minguar a cada visita, era só para fazer algum dinheiro.

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