Grito e Silêncio

Descendo a esquina de minha rua, vi dois cachorros idênticos ziguezagueando lado-a-lado, recém paridos pela noite e já costurando-lhe as carnes do ventre ao caminhar. Sem entender o que se passa na cabeça desses bichos que andam por aí como se tivessem ideia de aonde vão, segui meu caminho, e os dois malditos começaram a encarar-me com curiosidade, tímidos mas demostrando certa superioridade de direito, como se fossem vigilantes no primeiro dia de patrulha, à caça de todo o tipo de vagabundos e delinquentes que a noite faz brotar nos bairros e esperando qualquer deslize para sentar-lhes o sarrafo, esses psicopatas empoderados. Logo que percebi seu interesse em mim, devolvi-lhes fixamente o olhar de uma forma que não se deve fazer a todos os seres que se põem a caminhar a tais horas da madrugada. Um deles, provocado, chegou mais perto e, como se soubesse o tipo com quem estava lidando, começou a emitir um ganido alto e poderoso para seu porte, que devia com dificuldade chegar aos cinco ou seis quilos. Rosnou freneticamente por bastante tempo, mostrando-me todas as cúspides de todos os dentes de sua poderosa arcada de cachorro furioso. Alternava rosnados e latidos enquanto se aproximava e deixava caírem grossos pingos de saliva, que logo se misturavam com a água empoçada no calçamento, formando um espetáculo sórdido digno de uma antiga novela inglesa para assustar madames, ou talvez fosse americana. Por vezes ficou tão próximo de atacar-me que cheguei a pensar que eu perderia, ali mesmo, um belo pedaço da calça ou um gordo naco de pele, coisa que me faria menos falta no dia seguinte. O outro, entretanto, de aparência — repito — idêntica, permaneceu exatamente onde estava quando o vi pela primeira vez: vários passos atrás de seu companheiro, próximo ao portão de uma garagem qualquer. Mantinha-se silencioso e inexpressivo no grau máximo que os cachorros podem fazê-lo, esses demônios tão cheios de significado. Assistindo a todo o espetáculo, absteve-se de qualquer protagonismo ou participação, preferindo, soberano, alimentar-se de um tipo qualquer de catarse que conseguisse destilar da situação. Assustado, entrei pelo portão de casa rapidamente e certifiquei-me de trancá-lo com todas as trancas que me estavam disponíveis, tanto as úteis como as inúteis. Dentro de casa, sentei-me e respirei fundo. Reparei que o susto havia passado. O coração já batia normalmente e minha cor já devia estar de volta, pois eu já sentia formigarem-me gentilmente as pernas, mas, senhores, garanto-lhes: essa história nunca mais saiu de mim. O horror, uma vez que em nós faz morada, lá permanece como um hóspede silencioso mas acometido de intensos ataques de frenesi. O meu horror particular que lhes conto vez que outra dá as caras e me faz reviver a angústia de estar novamente na rua com aquele animal indescritível e completamente apavorante. Todo medo que sentimos é do desconhecido e até hoje temo profundamente, embora tal fato me envergonhe, a possibilidade de encontrar aquele cachorro dos infernos que permaneceu ali calado e não me quis devorar.

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