João Gilberto Noll (15 de abril de 1946 — 29 de março de 2017)

O último verão

Provavelmente já virou clichê dizer que a realidade pode ser mais estranha que a ficção. Iniciei, no mês passado e por recomendação do Daniel Galera, uma oficina de conto oferecida pelo João Gilberto Noll. Eu não conhecia o Noll, mas logo fui atrás de saber a seu respeito e fiquei interessado. Escritor reconhecido, prêmios Jabuti, obras adaptadas para o cinema e tantas outras insígnias do sucesso me fizeram crer que valeria a pena ir e voltar a Porto Alegre oito vezes durante oito semanas para receber suas orientações. Outro fator motivacional foi a proposta de escrevermos, cada um de nós, alunos, um conto por semana, o que — supus — melhoraria minha disciplina na arte de escrever. Juntei meus dinheiros e paguei a inscrição, mesmo sem saber exatamente o que esperar.

Cheguei adiantado ao primeiro encontro e fiquei na companhia do Noll e de mais dois ou três alunos por cerca de vinte minutos. Logo depois outros chegaram e se juntaram à conversa, todos com cara de que não tinham ideia alguma do que aconteceria naquela sala. O professor — não sei se é correto chamar assim aqueles que oferecem oficinas — pediu a cada um para que contasse suas experiências com a escrita. Ouvia atentamente, sempre de pernas cruzadas, tecendo comentários generosos e que davam a entender que todos éramos iniciantes no ramo, inclusive ele, o profissional. “A literatura fala daquilo que não pode ser dito, daquilo que é escondido”. Enquanto falava, fechava completamente os olhos — apertados mesmo — e seu rosto assumia uma expressão que não comunicava outra sensação que não um tipo particular de sofrimento. Suas opiniões pareciam custar-lhe caro em alguma moeda muito íntima e de circulação restrita. Estava dizendo aquilo que não podia dizer, estava descobrindo as verdades veladas por ele próprio, da maneira que sugeriu que todos deveriam fazer em seus textos. Contou como escreve e me espantei como seu método se parece com o meu — pelo menos nos textos em que consigo agradar a mim mesmo. Era, à minha semelhança (embora infinitamente mais competente), um escritor da palavra. As primeiras palavras que colocava no papel vinham de qualquer lugar dentro de si e não precisavam ser repletas de sentido. Essas puxavam outras e tudo que o escritor fazia era estar ali para ouvi-las e entender suas necessidades de companhia. Depois, em um segundo momento, lia tudo e formulava soluções para os problemas que criara para si próprio. Leu, ainda nessa aula, o conto “O vôo da madrugada”, de Sérgio Sant’Anna. Quando a leitura começou, antes mesmo da segunda linha, já previ que o processo seria tortuoso. A leitura do professor era extremamente lenta, sem falar que a entonação que dava para o final das frases causava em mim imensa agonia, sendo diferente de tudo que eu entendia como adequado para uma leitura em voz alta. As frases, para ele, não terminavam, sempre ficavam suspensas, como numa melodia dodecafônica. Durante mais de uma hora, segurei-me à cadeira, primeiramente pela agonia que me causava sua fala e, em seguida, pelo salto fantástico que o autor do conto dá lá pelo início do terço final. Admirei a bravura do professor em vencer, de passo em passo, uma caminhada de vinte e oito páginas em meio a tantos olhos. Todos resistimos ao processo e, creio, todos gostamos do conto. Ao fim do encontro, ele dá o tema do primeiro texto que deveríamos escrever, para ser trazido na aula seguinte: “O último verão”. Durante um breve café e uma caminhada de uns vinte minutos, pensei em que tipo de texto escreveria, qual história eu contaria, mas não consegui achar nada adequado para o tema e que me agradasse. Eu tentava fugir do lugar-comum, me afastando da ideia de que um “último verão” seja algo necessariamente ruim, como afirmado por muitos colegas. Pensei em elaborar uma história feliz sobre o tema, algo inesperado, talvez na perspectiva de alguém que detestasse o calor tropical e que se mudaria em breve para algum local frio. Entretanto, não fui capaz de fazê-lo. No meu mundo real, o verão havia realmente acabado e o outono já invadia Porto Alegre há alguns dias. Nas ruas, paineiras floridas; nos corpos, roupas mais compridas e elegantes. A promessa do inverno estava reafirmada, e isso estava nos pensamentos e conversas de elevador. Talvez não haja, de fato, maneira de extrair uma história alegre de um “último verão”. Talvez o lugar-comum afirme uma verdade absoluta e haja realmente uma correlação perfeita entre alegrias e verões. Talvez seja só eu mesmo que teime em pensar o contrário. Talvez por isso os escandinavos se matem. Procrastinei a escrita até a segunda-feira seguinte, véspera do dia da oficina e dia em que desisti oficialmente de tentar escrever o texto que me fora encomendado. Desmotivado, não compareci ao segundo encontro, embora tenha retornado no terceiro, mesmo tendo saído antes de seu término. Depois de pensar um tanto pelos próximos dias, resolvi que não voltaria mais à oficina.

Oito dias depois, abro minha caixa de e-mails. Seleciono anúncios e mensagens publicitárias de todos os tipos para enviá-los à lixeira e me deparo com um e-mail da instituição onde a oficina acontecera. Abro o e-mail e verifico o conteúdo. João Gilberto Noll estava morto. Vencido por um mal súbito em sua casa, o escritor da palavra não mais desvelaria verdades. Não havia comparecido ao quarto encontro de sua oficina, o que já havia deixado todos preocupados. Meu único desejo nessa hora foi que ele tivesse sobrevivido à própria morte para visualizar a ironia de tudo, já que nove dias antes de seu último suspiro terminara aquele que seria seu último verão. A vida por aqui segue. Da oficina eu já havia desistido, mesmo. Apesar disso, escrevo agora o primeiro conto sugerido. E não há ficção. Só há verdade, e do tipo mais cru disponível no acervo das possibilidades. Em memória do escritor, devo desvelar mais algumas verdades; falar daquilo que não seria adequado falar: eu não gostei da oficina, e ele não sabia ler em voz alta. Obrigado, João. Desculpe o atraso.

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