O presente (Parte 1)

A maioria das histórias é sobre pessoas. São as mais comuns, não é mesmo? Sei que Jack London e Virginia Woolf já fizeram boas histórias sobre cachorros e Saramago tentou com um elefante. Não adianta, esses bichos são gente. Esta aqui é uma história sobre um presente, mas é também a minha história, nem preciso dizer. De alguma maneira — que pode ser considerada tanto altamente egocêntrica quanto repleta de alteridade, é a história de toda a gente. E ela se repete desde que cercamos um pedaço de terra e chamamos de casa. E a repetição de si mesma é a própria história. Bom, já está ficando confuso, vamos ao que interessa.

Quando fiz 25 anos, meu avô me deu um presente. Me chamou num canto ao final da pequena festa que organizei em minha casa e disse:

- Guri, tenho uma coisa pra ti. Toma aqui, abre a mão.

- Bah, vô, sabes bem que não precisava, não sou um cara de presentes. — respondi educadamente para o velho, com um sorriso encabulado.

Franziu a testa, deu uma risada curta e debochada e empurrou sua mão contra a minha, fazendo gesto de que largaria o dito presente. Estendi minha mão abrindo bem a palma para recebê-lo.

- É um relógio. Está na família há algum tempo, não sei quanto. Me desculpa ter que te dar isso. Sei que esses presentes de vô são um saco. — disse ele em um tom curiosamente compreensivo a respeito de minha provável frustração.

Entendi disso que, se fosse por ele, não me daria o tal relógio. Que jovem hoje em dia se importa com isso? Mas era uma tradição de família, inventada por algum ancestral qualquer no tempo que relógios de bolso eram coisa de importância. Meu avô não era um homem dado a tradições, mas imagino que, para respeitar a memória de seu pai ou de sei-lá-quem, tivesse dobrado suas idiossincrasias e simplesmente feito o que devia fazer.

O relógio pareceu-me extremamente comum, a julgar pelo pouquíssimo que entendo de relógios de bolso. Era construído em algum metal barato de brilho levemente amarelado e possuía poucas possibilidades de interação com quem o operasse: uma proteção frontal construída do mesmo metal e que devia ser levantada quando alguém quisesse ver as horas e uma pequena chave para dar corda, localizada justamente acima do número doze.

- Obrigado, vô. Muito legal, me interesso muito por essas coisas de família. — disse já quase me arrependendo pela facilidade evidente com que essa mentira seria detectada pelo velho.

Deu-me um tapa no ombro e falou, já saindo de cena:

- Não esquece de dar corda.

Voltei para a festa e me despedi das pessoas que estavam indo embora: minha prima com sua família e um ou dois parentes que eu não reconheceria se os visse na rua. Os amigos já tinham ido, o que foi para mim uma grande novidade, já que em todos os outros anos eram eles que ficavam até o final. Enquanto isso vi meu vô entrando num táxi. O safado foi embora sem se despedir. Sinceramente, eu não via a hora de poder fazer coisas desse tipo sem ser recriminado pelos outros. Invejei-o um pouco, apesar de ter notado algum sinal de tristeza ou arrependimento em seu olhar no momento em que reparou que eu o tinha visto saindo à francesa.

Em minha pequena casa, o caos estava instaurado. É como se tivesse recebido uma grande visita da entropia num dia de fúria, querendo fazer mal para alguém simplesmente por sua presença. Tive nojo de um resto de salada de maionese que não estava ruim em si, mas a forma que assumiu depois dos convidados darem colheradas desregradas por toda a extensão do prato a tornava um quadro extremamente desagradável de ver. É mais ou menos como quando alguém abre um pote de margarina e percebe que há cumes agudos e vales totalmente caóticos desenhando toda a superfície do creme, que deveria, idealmente, estar liso, apenas texturizado por algumas passadas de uma faca arredondada que não lhe imprimisse graves acidentes topográficos. O estado da salada de maionese era o estado da casa toda: bagunçada num grão intermediário, sem grandes modificações como móveis arrastados, e também sem as de dimensão menor, como pó ou sujeira colada sobre as superfícies. A bagunça era toda num plano médio: objetos como pratos e garfos espalhados, copos em locais inesperados, etc. Essa bagunça é a mais difícil de consertar. De alguma forma ela se identificava com aquela que estava minha vida àquela altura, cheia de problemas de gravidade intermediária, que não são resolvidos nem por pequenas empreitadas e nem por grandes e profundas jornadas de modificação pessoal.

Depois de organizar a situação caótica da casa e me convencer, por conta disso, de que não valia a pena comemorar mais aniversário nenhum, joguei-me no sofá e liguei a televisão, só para ouvir alguma voz no noticiário. Senti um incômodo na altura da coxa e reparei que havia sentado sobre o bolso onde estava o relógio. Segurei a peça na mão, dando-lhe mais um pouco de atenção. Não parecia ter mudado nada desde a última vez que a vira e pelo jeito isso continuaria assim pelos próximos anos em que estivesse em minha posse. Abri-a novamente e dessa vez vi um pequeno pedaço de papel com duas palavras: “sinto muito”. Não entendi absolutamente nada. Me senti um pouco culpado por considerá-la tão inútil e me vi como uma criança mimada pelo mundo da tecnologia e que não sabe apreciar as coisas simples da vida. Pensei sobre isso por um ou dois minutos e então larguei o relógio ao lado do sofá. Fechei os olhos por alguns segundos. Pensei em ir para a cama, mas isso não era mais uma possibilidade real — era apenas meu lado adulto dizendo “lugar de dormir é na cama”, que foi imediatamente contestado pelo meu lado mais adulto ainda que simplesmente deixou escapar um “foda-se”.

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