Sobre startups.

Vou dar um relato aqui que talvez ajude quem está começando e dê uma apaziguada na generalização sobre “startups que vivem de aceleração/prêmios/pitch” ou “nota fiscal…”. O texto é longo mas é um relato sobre 3 anos aprendendo o que é uma startup.

Há 3 anos eu não sabia o que era uma startup. O Trakto meio que virou uma mas na verdade queria ajudar designers/criativos/artistas a negociar melhor pois tomavam sempre cano ou canseira pra receber.
O Jorge me visou sobre um Demoday, que também não sabia o que era. Nos inscrevemos. Antes do demoday passei 3 dias a noite indo ao Sebrae para uma preparação. Lá descobri que era uma competição e pela primeira vez escutei o termo pitch. 
Virei a noite preparando uma apresentação com vídeo, com um design legal para não passar vergonha na hora.
Cada time recebeu um estande com uma televisão. E passei o dia expondo.
O Trakto era somente eu por que o jorge tava competindo com um outro projeto num outro estande do meu lado.
Ali eu não tinha nada ainda tinha um protótipo no smartphone e uns mockups animados no After Effects.
Não sabia o que era modelo de negócio. Nem sabia absolutamente nada dos termos: valuation, growth, mvp, receita, mentor, investidor anjo, scrum, agil, validação… 
nada.
Não sabia absolutamente nada. Mas queria muito ajudar as pessoas a negociar melhor e também estava investindo, pois contratei a empresa do jorge para desenvolver o app e mandei fazer camiseta, cartão… Venho do mundo de design, publicidade e animação.
Dito isso. Fiz o pitch. Deu merda no vídeo. Mandaram voltar. Eu fiz de novo. Ganhei o primeiro lugar em meio a 40 projetos.
O prêmio: uma viagem para expor na Rio Info. 
Lá vai eu correndo pra preparar o material e estudar. 
Levei já de cara muita porrada por que não queria cobrar pelo Trakto e por achar “validar modelo de negócio” coisa de investidor/aproveitador.
Com essa mentalidade, eu achava tudo muito estranho. Desconfiava de tudo e todos. Achava os “pseudo-especialistas” um bando de zé ruela. E estava tão certo disso que ignorava a maioria das coisas que falavam.
Aí descobri o que era aceleração. Apliquei para o primeiro batch do SEED, programa em minas gerais. Passamos em último lugar depois que 3 startups desistiram.
No SEED aprendi o que era uma startup. A Tropos fez um programa de aceleração focado no desenvolvimento pessoal/profissional do empreendedor. 
E lá aprendi a escutar. Deixei de lado minha birra com os “pseudo-especialistas” e comecei a escutar mais. A aprender fazendo. Escutava. Aplicava e via se dava certo. Tomava porrada o tempo todo, e na época eu ainda achava que a culpa estava nos outros.
Ao final do programa apliquei para mais umas 10 aceleradoras. Passei na Abri Plug and Play(RIP) e no Startup Chile.
Escolhi Abril PNP por ter uma perna no vale. 
Lá aprendi o que era um SAAS. O pessoal que hoje forma a Liga Ventures foi responsável por me conectar a mentores como Marco Gomes que na época foi de livre e espontânea vontade ensinar. E me ensinou muito na época.
Não só ele mas Luis Novo, Amyres, os meninos da Rock Content… Cara fomos recebendo aulas de gente super bacana e que estavam dispostas a nos mostrar a importância do negócio por trás da startup.
Rogerio, guilherme mass e Daniel Grossi foram pacientes para entender a arrogância do empreendedor que está começando e sempre inventa uma desculpa para tirar o seu da reta. Eu fiz isso. 
Depois de tanta porrada chegava em casa puto as vezes por os caras acharem nosso projeto ruim ou por questionar o tempo inteiro minhas decisões. 
E também tinha uma frase pronta: “ também já com dinheiro de investidor fica fácil né…”
Eu não tinha investidor nenhum. O dinheiro da aceleração mal dava pra pagar o time. Eu investi do meu bolso mais de 200k para segurar a onda. Vendi uma L200 e minha poupança foi pra o saco.
Mas valeu por que eu finalmente tinha compreendido o que era um SAAS. 
Dito isso saí para o Vale do Silício confiante. 4 meses dentro da plug and play. Lá virei mais um bostinha de novo.
Pois além de latino, meu projeto era nada pra o vale. 
Deu vontade de desistir. De verdade. 
Os investidores, mentores e outras pessoas, olhavam nosso produto e ignoravam. Eles se preocupavam mais comigo.
E iam me preparando para mudar minha cabeça. Eu ainda estava cego sem ver a verdade: investidor só vai colocar dinheiro em negócio.
E eles me perguntavam: “ por que não ser global? “
Então voltei ao Brasil e apresentei aos investidores um negócio. Um modelo de assinatura por um software que nas planilhas fazia sentido e eu finalmente, quase 2 anos depois do primeiro pitch, tinha condições de tocar. 
Fechei uma rodada de investimento anjo. Quase dois anos na estrada para pegar uma primeira rodada de investimento.
Nesse ponto eu me tornei agradecido aos mentores, aceleradoras e principalmente por ter tornado minha jornada pública. 
Pois consegui uma torcida pelo projeto. 
Durante esse tempo se você olhasse meu faturamento, eu seria uma “fraude”.
Mas um negócio, durante um tempo, é muito mais que faturamento.
É gente. Aceleradoras investem em gente. Investidores investem em gente. Empreendedores dependem de gente.
Por isso ser filha da puta com os outros é um tiro no pé.
Ficar descendo a lenha em aceleradores, investidores e gritando aos 4 ventos que é tudo fake, que é um bando de charlatão ou que tem startups vivendo de aceleração e powerpoint é jogar contra sua própria startup.
Um FATO: 90% das startups quebram. Existem vales da morte que por um acaso do destino, um empreendedor não consegue o dinheiro/devs/designers/vendas… a tempo e se fode.

Por isso me preocupa, gente que fala mal sobre startups, especialmente gente que nunca realmente passou por uma aceleradora ou levou não de pelo menos uns 50 investidores ou se quer sabe direito o que é pivotar. 
Falam mal até de estar fazendo pitch. Veja o nível de ignorância que está virando regra no mercado.
Me preocupa muito é ver um monte de gente misturando marketing digital com startups. Falando sobre empreendedorismo inspiracional… 
Cara, novamente é sobre gente. Não é sobre negócio. Não se ensina ninguém a ser bom empreendedor apenas com formulas de excel ou técnicas de vendas. Tem gente que ainda é tão mesquinha que vai achar que o mundo gira ao seu redor.
Ver gente criando problemas onde não existem e partir dos problemas se promoverem é triste.
Falam mal de uma fórmula mas vendem outra fórmula que dizem ser melhor.
Me preocupa ver gente falando de nota fiscal o tempo todo. 
Como se todo projeto tivesse que gerar uma nota fiscal rápido.
Cada negócio tem um timing. Um tempo certo de virar nota fiscal.
O Trakto ainda é frágil. Como negócio podemos morrer a qualquer momento. Por isso ralo pra caralho pra que isso não aconteça.
E nisso escuto muita gente dando indiretas sobre faturamento. Sobre prêmios, aceleradoras e pitches.
Ontem ganhei meu segundo prêmio em 3 anos. 
To roco de passar o dia explicando o Trakto.
Quem passa e ver o prêmio acha tudo muito estranho.
Quem me vê com um suspensório e um flyer na mão depois de 3 anos, acha muita firula pra pouco resultado.
E esquece que eu to ali tentando gerar a nota fiscal que parece ser o salvo conduto para startups no Brasil.

Então moçada peço que esse relato seja o início de uma mudança onde haja menos julgamentos e mais ajuda entre as startups. 90% delas vão morrer. O Trakto pode tá no meio. Você pode tá no meio. O projeto seu que ainda nem nasceu pode estar no meio também.
Então menos críticas destrutivas e mais críticas participativas. Onde primeiro você coloca o seu na reta. Pois quando você vai começar a respeitar ainda mais quem tá do lado tentando vender seu sonho, sua ideia, seu prototipo, seu deck, suas ações ou seu produto.

Perdão pelo longo texto.

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