Armas geram ou evitam violência?

A temível Sig Sauer semiautomática. 30 tiros em 11 segundos.

Como o Aquecimento Global, esse é um tema complexo em que a maioria das pessoas já traz uma opinião pronta formatada a partir de sua ideologia maior. E aí se fecham a números que não colocam essa temática no extremo que se afina com seu ideário.

A ideia é trazer uma série de números, alguns puxando em sentidos opostos, para levar a reflexões mais ricas e que escapem da linearidade de opiniões rígidas.

As pessoas dizem que armas não matam, assim como carros não matam. Ainda que isso seja verdade, esse tipo de retórica leva a exageros.

É preciso reconhecer que, independente das leis vigentes, qualquer pessoa tem um cabedal de meios ilícitos de arranjar uma arma. A venda legal só torna as coisas um pouco mais fáceis.

Como o artigo do Mercado Popular bem observou, a ilegalidade diminui um pouco o fluxo de armas porque elas ficam mais caras e, pela lógica, a demanda se reduz e assaltantes Zé Arruelas usarão mais facas e canivetes, assim como o mecânico de rua tem ferramentas bem mais precárias para consertar carros, ainda que a profissão dele as exijam. Isso acontece não porque as ferramentas mais caras são proibidas, mas devido a seu preço.

Em alguns estados, a facilidade nos EUA para aquisição de armas é verdadeiramente exagerada. Vendem-se verdadeiras máquinas de morte com pretexto de se exercer a legítima defesa.

O último grande assassinato em massa nos EUA foi na boate gay em Orlando no dia 12 de junho do ano passado, onde 49 pessoas morreram.

O assassino usou um poderoso rifle Sig Sauer MCX semiautomático, estilo AR-15, com balas de 5,7 mm de diâmetro, 2,7 kg, com capacidade de disparar 30 tiros em apenas 11 segundos. As armas semiautomáticas são como carros automáticos. É só pressionar o gatilho para disparar, não precisa qualquer outra etapa para atirar de novo.

Nos EUA, em muitos estados, é bem fácil adquirir armas, de qualquer porte. Incrível imaginar que era possível comprar AR15 em um Walmart, até ela sair do mercado.

As pessoas pensam que vão ser atacadas por um exército? Sim, porque para se defender de um assalto em uma residência, ninguém precisa de uma arma dessa natureza!

Assim como a NRA (National Rifle Association) gasta milhões de dólares nos EUA em lobbies a favor da venda generalizada de armas, aqui no Brasil, há uma bancada expressiva de deputados, a tal Bancada da Bala, que são financiados pela indústria de armas.

Não é pelo bem da população que se vendem armas, é para fazer muito dinheiro vendendo a ilusão de proteção. Eles não querem que as pessoas se protejam. Eles estão na folha de pagamento da indústria! Assim quanto mais armas e munição eles venderem, mais eles ficam felizes.

Essas figuras estão patrocinando uma proposta que incluem absurdos como permitir a posse de armas por ex-detentos, desde que não seja condenado por homicídio doloso. Há ainda uma quota de 600 balas por ano, o que deixa de ser defesa pessoal para se tornar uma verdadeira guerrilha urbana. Grave também é relaxar muito as exigências do registro, quando deveria constar de um banco de dados centralizado, com DNA, digitais, número de série, etc.

Confira aqui as mudanças propostas pela Câmara para o Estatuto do Desarmamento, que que estão tramitando na Câmara.

Ainda que eu não seja contra a proibição de venda de armas, seria preciso criar contenções legais apropriadas.

Apontar a restrição atual na venda de armas como uma das causas mais importantes da violência no Brasil, chega a ser irresponsável.

O Brasil é violento, porque é pobre, porque a segurança pública tem poucos recursos, usa métodos arcaicos e é corrupta demais. Isso sem falar na impunidade prevalecente e no encarceramento generalizado, colocando no mesmo ambiente o indivíduo que furtou uma banana com poderosos bandidos.

A causa da violência no Brasil não pode definitivamente ser atribuída à falta de armas em mãos de cidadãos.

Independente de qualquer legislação sobre armas, boates em geral precisam ter uma rigorosa revista na entrada em busca de armas.

Não se pode ter pessoas armadas em um recinto fechado, banhado a álcool. Isso transformaria qualquer briga de ciúmes em um potencial banho de sangue. Sim, porque basta um cara balear um rival da sua cara metade, para gerar potencialmente pânico e até pisoteamento.

Em relação ao já citado terrível massacre citado acima, testemunhas contam que nesse dia não havia detectores de metais e os guardas não estavam checando sacolas ou revistando as pessoas que entravam. Ou seja, o assassino serial entrou sem problemas, portando o rifle semiautomático citado acima, com 91 cm de comprimento e mais uma pistola.

Em relação a esse episódio, alguém acredita de verdade que se os clientes estivessem armados, eles conseguiriam os que os seguranças armados e treinados não conseguiram, isto é, deter o assassino disposto a tudo em um lugar superlotado?

Assassinos em massa dentro de uma boate são bem raros, estatisticamente. De nada valeria ter o hábito de ficar dançando animadamente com um AR15 na cintura, para a eventualidade de aparecer um assassino serial. Daria apenas dor nas costas e não teria nenhuma utilidade real, em caso de ataque. Só aumentaria o número de mortos.

Será que mais armas significa mais violência ou menos?

A resposta rápida é: nem uma coisa nem outra. Depende muito mais de uma associação entre questões culturais, o nível de desenvolvimento de um país e relativo à forma de funcionamento da Justiça.

Se você fizer cherry picking (coleta seletiva), tira-se a conclusão que quiser. Basta escolher o fato “certo”.

Por exemplo, vamos comparar os EUA com a Inglaterra. Os EUA proporcionalmente estão muito longe de ser campeões em crimes violentos, dentre os países desenvolvidos.

Nos EUA foram 1,2 milhão de crimes violentos em 2014, segundo o FBI. Considerando que a população nos EUA em 2014 era de 319 milhões, são aproximadamente 376 crimes violentos para cada 100.000 habitantes.

Já na Inglaterra foram registrados cerca de 1,3 milhão de crimes violentos em 1 ano móvel, sendo que a população é de 51 milhões de pessoas. Isso perfaz 2.352 crimes violentos para cada 100.000 habitantes, uma taxa quase 8 vezes maior que os EUA.

A densidade populacional e a urbanização maior em relação aos EUA devem influenciar nesses números, mas é possível que o fato de se ter menos armas estimule a prática de crimes, muitos feitos sem uso de uma arma de fogo, uma vez que a chance de reação é bem menor do que nos EUA.

Em 2014, no entanto, houve 14.200 assassinatos nos EUA, o que dá aproximadamente 4,5 assassinatos por 100.000 habitantes, contra apenas 573 assassinatos na Inglaterra, o que perfaz apenas 1,1 assassinatos por 100.000 habitantes.

Entretanto é prematuro explicar tal discrepância pela questão das armas. Isso passa muito mais por uma forte questão cultural, apesar de ser notável a desproporção entre a incidência de crimes violentos com assassinatos nesses 2 países.

Quando se olha mais números, percebe-se que não há uma relação causal muito clara entre armas e violência. A Suíça tem muitas armas, 45,7 por 100 habitantes, mas não é um país nada violento. Tem apenas 0.5 assassinatos por 100.000 habitantes.

Os EUA têm ainda mais armas (113 por 100 habitantes), e é considerado um país bastante violento, perante o grau de desenvolvimento que ele possui.

Na lista de países relativamente desenvolvidos, que têm um índice de assassinatos superior aos EUA, só aparece países não tão desenvolvidos como a Rússia (9,5 por 100.000 habitantes) e a Lituânia (4,9 em 2013), que tem renda per capita muito inferior.

Esses países, paradoxalmente, tem muitos menos armas de fogo por habitante. A Rússia tem 8.9 por 100 e a Lituânia tem 7. Depois dos EUA, em taxa de assassinatos, começam a aparecer países como Letônia (4,1 em 2012), Montenegro (3,2) e Estônia (3,1). Todos os outros países desenvolvidos, mais relevantes, estão bem abaixo.

Os EUA se destacam por algum motivo que precisaria ser investigado melhor. Há um forte componente cultural. No entanto, há muitos países bem armados com criminalidade baixa e outros tantos desarmados com criminalidade alta.

É preciso ter cuidado ao associar número de armas a violência.

O campeão mundial em assassinatos, El Salvador, tem 9,7 armas por 100.000 habitantes, pouco mais do que o Brasil (9). No entanto, a taxa de assassinatos por 100.000 habitantes (103) é mais do que 3 vezes maior que no Brasil.

Por outro lado, é óbvio que um país muito pobre nunca vai ter uma quantidade elevada de armas por 100 habitantes!

Com certeza, não são mais armas que irão equacionar o problema da violência em lugares como El Salvador ou o segundo lugar, Venezuela (90 assassinatos por 100.000 habitantes e 11,2 armas para cada 100 pessoas)

Será que a posse de armas evitam mortes durante uma ocorrência?

A resposta a essa questão também é simples e dessa vez não vai agradar aos defensores de armas.

Evitam algumas, mas causam muito mais!

Mesmo considerando que mais de 1/3 da população porta armas nos EUA, os 1,2 milhão de crimes violentos de 2012 geraram apenas 259 assassinatos por legítima defesa.

Ou seja, apenas 1 em cada 4.600 vítimas conseguiram reagir de forma “completa”. Por outro lado, muitas armas foram roubadas durante assaltos, totalizando 172 mil armas nesse mesmo ano, o que traz muitos armas para o mercado, que são vendidas muito baratas.

Repare que esse é um modo muito fácil de abastecer o mercado com armas ilegais sem registro, que depois servem para matar outras pessoas.

O total de homicídios com arma de fogo no mesmo ano de 2012, por outro lado, foi 32 vezes maior (8.342) e o de suicídios com arma de fogo 80 vezes maior (mais de 20 mil), além de mais do dobro de morte acidentais em relação às mortes de legítima defesa.

Quando foi possível levantar o grau de relacionamento entre a vítima e o assassino, estima-se que 75% era cometido por um conhecido da vítima e 1 em cada 3 era membro da família. Ou seja, há muito mais assassinatos decorrentes de desavenças entre conhecidos do que assaltos, onde mais uma vez a presença da arma faz a “diferença”, saindo um pouco do mito televisivo do herói que defende sua família de malfeitores cruéis.

Uma vasta estatística de 2007 a 2011 apontam que apenas 0,8% das vítimas tentaram reagir com uma arma, a grande maioria sem sucesso!

Em suma, as pessoas se matam bastante com arma de fogo e se envolvem em um razoável número de mortes acidentais por arma, mas praticamente não reagem e quando reagem geralmente fracassam, apesar de muitos imaginarem o oposto, por ver excesso de seriados policiais na TV.

Para piorar, muitas pesquisas mostram que a vítima tem muito mais chance de ser alvejada quando reage. Uma pesquisa acadêmica de 2009 estimou que há 4,5 mais chance de morte da vítima quando comparado a crimes sem reação.

O uso para a defesa pessoal, dentro dos lares, é uma possibilidade, mas a pessoa precisa minimamente ter um treinamento muito bom.

Além disso, ainda que treinado, suas chances são muito baixas ao reagir, porque o stress, o fator surpresa, a falta de hábito e o fato do seu alvo ser móvel são seus adversários .

Apesar de tudo, penso que, a partir de uma legislação adequada, é preciso permitir a venda de armas, porque não concebo uma sociedade, onde apenas o bandido e a polícia, por meios diferentes, possam ter armas.

Acho que é inegável que, quando um bandido desconfia que pode, em qualquer ambiente, ter pessoas armadas em sua volta, ele fica com uma sensação de risco, que atua um pouco como fator inibidor para ele entrar no mundo do crime ou retornar a ele.

No entanto, eu jamais teria arma. Prefiro não reagir a um assalto. Acho que preservo mais minha vida.

Se eu estou em um ônibus e um passageiro puxa uma arma para reagir, sei que corro muito mais risco de vida do que se ninguém reagisse. Por outro lado, se os bandidos soubessem que 100% das pessoas andam desarmadas, eles seriam ainda mais audaciosos.

A recente greve dos PMs no Espírito Santo não deixa de ser um indicativo disso. Tirando as suspeitas de envolvimento da própria polícia em algumas mortes, é lógico que não existir polícia nas ruas é um estímulo para o cometimento de diversos crimes, já que é bem mais fácil escapar incólume.

O uso de uma arma pode ser, de fato, um meio efetivo de evitar o assalto, se ele ainda não aconteceu. Um tiro para o alto pode afugentar os bandidos. No entanto, em um confronto, as chances dos bandidos são muito melhores do que das vítimas, mesmo para indivíduos treinados, exceto em raras exceções.

O assassinato em massa na boate não prova que o controle da venda de armas seja correto nem que seja errado. Isso tem mais a ver com uma questão cultural norte-americana e algumas individualidades distorcidas, que aqui e ali emergem. Em suma, não devemos saltar para as conclusões e tornar todo acontecimento um suporte para nossas ideologias.

(Via 1Olhar)

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