Pichação, arte e excluídos em Sampa

Quando João Dória, atual prefeito de São Paulo, foi entrevistado pelo jornalista Kennedy Alencar do SBT, que milita na esquerda moderada, ele foi muito assertivo na questão dos pichadores, deixando Kennedy Alencar vazio de argumentos.

A questão não é discutir se a pichação é arte ou não. Isso é irrelevante. O ponto é que não se pode apelar para a questão social, quando se trata de vandalizar a propriedade privada de alguém (casas, carros, etc.) ou equipamentos da cidade que, em última análise, servem para uso e usufruto da população (bancos de praça, pontes, viadutos, monumentos, etc.). Se é para ser assim, que se legalize o furto e o roubo. É, afinal, um meio de aplacar a desigualdade.

O João Dória deixou o Kennedy desconcertado quando ele perguntou se gostaria que o coitadinho do pichador pichasse a casa dele. Se ele respondesse que sim, seria o hipócrita do século.

No fundo, é comum um cara de esquerda ver a pichação como um saudável grito dos oprimidos, desde que esse “brado” não seja no muro da casa dele. Se esse mesmo indivíduo, para tentar ganhar coerência, defender que possa ser pichado o equipamento público, mas não privado, seria comicamente incoerente. Quando é de alguém, em geral das elites, não pode, mas quando é de todos, aí tudo bem?! Coisa pública é latrina?

A pichação, segundo essa visão, seria apenas uma saudável manifestação artística dos pretensamente excluídos. No entanto, não é com coitadismo que vamos resolver nossos problemas.

João Dória tem falado muito desse tema para a Imprensa. Não pela sua importância, mas porque tem sido constantemente indagado por jornalistas diversos. Eles (e não o Dória) agem, por vezes, como se essa fosse a questão mais importante da cidade de São Paulo.

É óbvio que existem questões bem mais importantes do que a pichação, mas qualquer prefeitura tem fôlego para abrir muitas frentes e uma coisa não exclui a outra. Com certeza, essa questão não ocupa praticamente tempo nenhum da agenda de Dória.

Quando se picha uma ponte ou viaduto, o pichador está obrigando que todos convivam e aceitem as manias e frustrações de cada um dos indivíduos que precisam, querem e urgem se expressar. Um mínimo de harmonia urbana não pode se dissolver na aleatoriedade de rabiscos aleatórios e revoltados.

Mais uma vez, são atos isolados de um pequeno segmento da Sociedade se impondo sobre a vontade da maioria, como aquela manifestação com 20 gatos pingados, parando por horas uma artéria importante da cidade, imobilizando grávidas prestes de dar a luz, ambulâncias, etc.; tudo em nome da livre expressão.

Se uma estátua pode ser considerada equivalente a um quadro em branco para as pessoas se manifestaram sobre ele, que ela fosse inicialmente concebida dessa forma. Não é o caso. Uma estátua já é o estágio final desejado de um trabalho artístico. Quando alguém picha um rabisco qualquer sobre uma obra de arte, ele não está apenas deturpando a intenção dos artistas que a fizeram, ele está impondo para a população uma alteração não solicitada.

Se essa moda pega, a Nestlé pode começar pichar propaganda do Nescau em todos os monumentos, em nome da arte. Ah, mas a Nestlé não representa os “frascos e comprimidos”, trata-se apenas de mais uma corporação do mal.

Outra idéia. Podemos fazer um cadastro de excluídos, com carteirinha e tudo. Aí o filhinho de papai que também picha não terá mais vez. Afinal, ele não enfrenta discriminação social. Só é alguém que está morrendo de tédio.

Algum ser humano vivente poderia achar razoável pegar o quadro “Nascimento de Vênus” de Botticelli, que está no Louvre, e pichar algo qualquer nele, em nome de uma manifestação artística de algum representante do povo marginalizado?

“Nuca pencei q namora fosse tâo bom”: O quadro fica mais bonito?

Imagine. Um descamisado faz cocô sobre uma estátua alegando ser uma manifestação artística da degradação da Sociedade pós-moderna. Se alguém ousar limpar a bosta, o indivíduo poderia processar o estado por se imiscuir no direito dele de manifestar livremente seu pendor artístico.

Ninguém se manifesta quando um indivíduo sem recursos apaga a pichação do carente anterior com sua própria pichação. Ele não estaria prejudicando o direito do excluído anterior de manifestar uma indignação com a injustiça social reinante? Ou a injustiça que ele sofre falou por último e melhor?

Eis aqui a transcrição do trecho da entrevista com o Kennedy Alencar, que versa sobre pichação.

KA: Eu tenho acompanhado. Mas muitos pichadores se transformaram em grafiteiros.

JD: Ótimo isso, me dá inclusive a oportunidade de dizer a aqueles que estão nos assistindo que, se você eventualmente é um pichador, mude de profissão.

KA: Mas o grafite acaba sendo muitas vezes uma porta de saída da pichação e uma entrada no mundo da arte.

JD: E no mundo da formalidade, no mundo da honestidade e no mundo da verdade. Isso vai ter o nosso apoio.

KA: Na realidade, muitos dos pichadores são jovens da periferia que vivem em condições precárias, falta de lazer.

JD: Kennedy, você mora aonde?

KA: Eu moro em Brasília.

JD: Você gostaria que a porta da sua casa ou do seu apartamento fosse pichada?

KA: Claro que não, prefeito, não se trata disso. Nós estamos falando de um fenômeno da juventude. Deixe só eu concluir a pergunta e o Sr. vai poder responder com firmeza. Eu compreendo as ideias do Sr., é apenas uma discordância em relação a esse ponto, porque são muitos jovens da periferia, jovens pobres…

JD: O fato de ser jovem não justifica você cometer uma irregularidade, não justifica agressão. Transgressão não tem idade.

KA: O Sr. está certo, não justifica. Mas um prefeito não deveria ter, para essa realidade, um olhar mais social e menos policial? Tentar atrair esses jovens de alguma maneira? Porque o Sr. está transformando isso numa guerra em que eles são bandidos. Não é uma retórica muito agressiva para lidar com jovens que têm problemas?

JD: Não, é a retórica correta. Nós temos os dois, como eu acabei de dizer aqui. Se você é um pichador, mude de profissão e venha ser um grafiteiro ou um muralista. Nós temos o MAR, o Museu de Arte de Rua, que lançamos na semana passada com os grafiteiros. Eles são os curadores do grafite em São Paulo.

KA: É uma arte autorizada, não é?

JD: Você não quer imaginar que as pessoas vão fazer o que quiserem e a hora em que quiserem aqui em São Paulo. Esse tempo já foi. Comigo, não.

KA: Mas é correto o poder público colocar limites…

JD: Eu fui eleito para ser prefeito, não para ser condescendente. A lei, aqui em São Paulo, passa a ser aplicada em tudo. O tempo da condescendência já passou. A lei é a lei.

KA: Um olhar social para isso, então…

JD: Tem a Escola do Grafite, que estamos constituindo no antigo cinema Arte Palácio e, ainda no final deste semestre, vai estar operando e funcionando com curadoria dos grafiteiros e uma ação de coordenação geral do André Sturm, que é o nosso secretário de Cultura. Vamos ter lojas e espaços para que a sustentabilidade do trabalho dos grafiteiros possa representar renda e oportunidade, inclusive abrindo um portal para que instituições, empresas, imobiliárias, indústrias de construção civil, contratem os grafiteiros para que eles possam ter a oportunidade de trabalhar. Vou te dar um exemplo concreto agora. Estamos terminando a reforma dos banheiros do parque do Ibirapuera, que estavam todos deteriorados e há mais de uma década sem reforma. Estão sendo reformados a custo zero para a prefeitura, o setor privado está pagando. Nós recomendamos que eles contratassem grafiteiros e muralistas para pintar as paredes desses banheiros com autorização da Prefeitura. Eles foram contratados e estão fazendo isso. Cinco museus de arte de rua, nós vamos ter mais de 120 grafiteiros, no total, sendo convidados e pagos pela Prefeitura para realizarem esse trabalho de forma organizada, positiva e construtiva. E mais, a escola de arte.

Gosto muito da serenidade, da postura, da força e a inteligência dos argumentos que João Dória tem mostrado em várias de suas entrevistas recentes. Até agora, é o meu candidato favorito à presidente em 2018, embora ele não tenha ainda oficialmente se lançado.

( Via 1Olhar.com )