Nós os “trouxas” e eles os “espertos”

Certificado de “trouxa”, passado em cartório, é o que você recebe quando se engaja para defender cegamente algum partido político no Brasil. Qualquer Partido político. Seja para beneficiar o PT ou o PMDB, ou o PSD, ou o DEM, ou o PQP, ou qualquer um dos surreais muitos partidos que pululam feito aves agourentas no Brasil: em matéria de corrupção não sobra para quase ninguém no sistema político brasileiro. Creio até que quase nunca sobrou, caso seja feito um levantamento acurado da matéria, apenas nos últimos 100 anos. Por que, cá pra nós, desde que me conheço — e já não sou nenhum garotinho — e tento acompanhar a política nacional, que escuto versões cada vez mais aterradoras, desassombradas e vexatórias desse mesmo espectro pestilento que hoje assombra a uma nação estupefata.

Esse é o momento que vivemos: 200 milhões de anônimas “buchas de canhão” assistindo de camarote à derrocada do PT e presenciando agora a “débâcle” política da outra banda podre, o PMDB, após a constatação de que a sinistra coalizão entre os dois Partidos e seus “coronéis” aliados, oportunistas de “última hora”, com o intuito explícito de se entronizarem no Poder e saquear o país, desembocou numa onda de corrupção jamais vista, cujo fedor fétido acaba de respingar, também, para os demais Partidos de oposição na ocasião, como o DEM e o PSD. Essa é a grande verdade que alguns já tinham desconfiado, mas que agora parece ter ficado patente para todos e têm causado um clamor geral de indignação.

Não é para menos, tal indignação, perante as assustadoras e descomunais evidências que incriminam boa parte das lideranças políticas do governo anterior e do atual. Sim, não é para menos, mas existirá alguma utilidade em nós, os que nos dizemos moderados, simplesmente ficarmos nesse “cabo de guerra”, trocando tolas figurinhas acusatórias com os oponentes? Dos radicais de ambas as colorações pode-se esperar qualquer atitude insana, sobretudo dos radicais esquerdistas, ligados a partidos como o PT, o PSOL, o PCdoB e similares, pois é o que a eles resta: jogar areia no ventilador, já que pela razão não têm como convencer ninguém em seu juízo perfeito, a não ser por lavagem cerebral; quanto aos radicais direitistas, os eventuais partidos fascistas, as predadoras e não menos nocivas instituições financeiras e os grandes conglomerados, esses costumam ser mais inteligentes e em geral atuam em surdina, para obter resultados mais concretos (que o digam as Odebrechts da vida). Mas de nós, a grande maioria, que se diz moderada e rejeita esses extremismos, espera-se uma atitude no mínimo um pouco mais inteligente. No entanto, não é a isso que se assiste nas redes sociais, hoje em dia o maior termômetro da opinião popular e do comportamento das massas, aonde o que se vê é apenas cada grupo enfileirando argumentos acusatórios contra os oponentes, alguns plausíveis, outros nem tanto e alguns verdadeiramente ridículos e absurdos na sua cegueira, criando inimizades e discórdias que em nada nos beneficiam. Como se as pessoas tivessem algum prazer em se aproveitar da desgraça que é termos uma classe política desse nível tão rudimentar e aético para promoverem uma autopromoção egóica. Muito raramente nos deparamos com uma discussão de alto nível educativa, adulta e com um mínimo de massa cerebral envolvida. Até quando continuaremos a bancar os “trouxas” agindo dessa forma? Os políticos “espertos” de plantão agradecem, e como agradecem! Afinal, eles, os “espertos” são mestres na arte de dividir os “trouxas” para se locupletarem à vontade…

Assim é que não existe nada mais tolo e ridículo do que essa guerrinha de provocações que muitos usam para defender o partido que apoiam e tentar em contrapartida incriminar o oponente, fingindo esquecer que, nesse quesito, TODOS têm “rabo de palha”, num círculo vicioso retroalimentado por uma raiz comum de ganância e sede de poder que cresce livre e sem limites e que parece não ter fim. Assim, para o momento, quando se tratar de corrupção, o máximo que podemos fazer, se pretendermos demonstrar alguma inteligência, é apoiar algum político com quem tenhamos afinidade ideológica e rezar para que ele esteja limpo e ilibado de qualquer acusação. Continuar a defender cegamente partidos e políticos de nossa preferência comprovadamente corruptos, sejam eles de que partido forem, só atestam publicamente o nosso fanatismo e o orgulho desmesurado.

Por que, em vez de ficar apontando o dedo acusador para este ou para aquele Partido, um exercício que se revelará desgastante e ineficaz por visar florescências e frutescências, mas que de fato sequer atinge a raiz-mãe apodrecida, geradora de tais excrescências, o que todos precisam ter consciência é que precisamos começar a exigir mudanças de base profundas, que modifiquem na sua verdadeira essência o sistema político putrefato que nos governa para que, de fato, se corte o mal pela raiz.

Se conseguirmos superar esse estágio tribal inicial de mesquinha confrontação e revanchismo a que somos levados pelo engajamento por motivos errôneos (como, por exemplo, acreditar que o nosso partido é idôneo e limpo, quando já sabemos que nenhum partido no Brasil o é) e pelo orgulho ferido e pararmos de defender cegamente os políticos e partidos de nossa preferência, contra todas as evidências em contrário, e desistirmos de revidar infantilmente, apenas apontando exemplos similarmente incriminadores aos oponentes, quando sequer aceitamos em nosso íntimo os exemplos que mancham de forma inegável as nossas escolhas políticas, poderemos finalmente estar unidos nesse quesito e ter a força necessária para exigir as mudanças profundas que são necessárias e que jamais lograremos alcançar enquanto estivermos divididos.

Só assim poderemos então passar para um estágio mais adulto da discussão, aquela que realmente conta e faz a diferença, quando superado, ou pelo menos minimizado ao extremo, o obstáculo da corrupção: a discussão de qual o político ou partido que de fato melhor defende as nossas convicções políticas e econômicas e de discutir com profundidade, exatamente em cima de tais diferenças, pois já é mais do que tempo de constatarmos que discutir em cima de dados como corrupção na atual conjuntura não vai nos levar a lugar nenhum. Não é que tal discussão seja insignificante ou desnecessária; é que no atual sistema em que já constatamos que a corrupção infelizmente faz parte integrante do jogo político de todos os partidos, mantermos a análise quase que apenas fixada nisso irá sempre nos levar a um impasse e a um beco sem saída.

Não se trata simplesmente de ver se o político tem uma aparência pessoal ou uma capacidade de persuasão que nos agrade ou se tem lábia e empatia pessoal. Isso é primário. Trata-se de saber qual a ideologia que ele defende e qual a plataforma política do partido a que ele pertence e se as ideias que aquele partido e aquele político a ele afiliado defendem são as que mais condizem com aquelas que acreditamos e que julgamos serem as melhores para o país em que vivemos.

Trata-se de se informar com certa profundidade sobre o que é Liberalismo ou Capitalismo e o que é Socialismo ou Marxismo em sua real essência — as duas correntes ideológicas principais que se contrapõem como alternativa social e econômica no mundo — e quais as sutis, porém importantíssimas gradações existentes entre os dois extremos dessas duas teorias: o Capitalismo Selvagem e o Comunismo, ambas radicais, fanáticas e imunes a qualquer diálogo civilizado, das quais o mínimo bom senso indica que se deve manter distância absoluta. Trata-se de desmistificar inteiramente os mitos que cercam a concepção que formamos acerca de ambas as ideologias e de investigar de forma desapaixonada se os conceitos e preconceitos que foram inculcados em nossa mente a favor ou contra alguma dessas ideologias correspondem de fato e inteiramente à realidade experimentada nos países que as praticam. Trata-se de saber se as tais ideias que adotamos, na prática realmente conduzem o país aos rumos de bem estar e progresso que desejamos, ou se fomos levados a acreditar em teorias enganosas com resultados frustrantes na prática. Trata-se de se informar quais os resultados alcançados na prática por outros países que já adotaram as ideias que aquele político ou partido pregam e se tais resultados foram no mínimo satisfatórios para a maioria da população daqueles países. Ou até avaliar tais resultados em nosso próprio país. E ter a maturidade emocional de aceitar para nós mesmos o resultado de tal julgamento, por mais que esses resultados nos façam reconsiderar nossos conceitos, por vezes erroneamente cultivados ao longo de muitos anos.

Trata-se inicialmente de escolher qual dessas bases ideológicas, com todos os seus defeitos (afinal, não existe sistema político perfeito e apenas nos cabe escolher o menos imperfeito), consegue oferecer maiores possibilidades de sucesso coletivo na prática e de cobrar dos políticos e partidos que dizem seguir tal ideologia que as coloquem efetivamente em prática, para benefício de todos nós que os elegemos e não apenas usarem das prerrogativas que lhes concedemos com o nosso voto para se saciarem com as benesses do Poder, enchendo os bolsos de dinheiro, ainda mais quando são acobertados por essa indecência que é o Foro Privilegiado.

Não se trata jamais de uma escolha emocional e imatura baseada em teorias idealistas, utópicas e ineficazes, mas sim uma escolha racional e adulta: afinal é o nosso futuro, a nossa sobrevivência financeira, o nosso bem estar material que está em jogo. Pode ser muito trabalhoso, mas é a única solução para sairmos da escravidão da ignorância, do atraso, da miséria e do jugo de políticos oportunistas, populistas e predadores que disso se aproveitam. Só assim deixaremos de ser os eternos “trouxas” e eles os “espertos”!

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