Até quando salvar a todos e se esquecer de mim?

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De antemão, um cordial lembrete: este texto não é direcionado às pessoas cuja vida consiste no serviço solidário aos pobres. Cá entre nós, a bondade ainda permanece como um luzeiro diante do individualismo que nos turva a visão. Em si, a bondade “é a disposição geral para praticar o bem. Associa-se estreitamente à compaixão, que é a necessidade de aliviar o sofrimento dos outros, e ao altruísmo, que é a emoção social que dela deriva” (LENCASTRE, 2010, p. 114).

Posto isso, convém ressaltar que as palavras abaixo se destinam às pessoas que auxiliam o mundo inteiro, mas acabam por esquecer delas próprias. É a triste saga dos que são lembrados apenas quando necessários ou requisitados só quando úteis. Tornam-se valorizados pelo que têm e não pelo que são, principalmente, em vista do que podem oferecer, mesmo que a duras penas.

Acudir, socorrer e salvar parece uma norma na vida daqueles que fazem ‘das tripas coração’ para ajudar a todos. Amparam multidões e, no fim, se sentem desamparados. Movem o mundo em função dos seus, ao passo que os seus não movem um dedo para ajudá-los. Dão banquetes, mas recebem migalhas.

Providenciam o impossível e não podem contar nem mesmo com um mísero possível. De muito bom grado ajudam estranhos, familiares, amigos e toda ordem de sofredores. Por outro lado, quando mais necessitam, naquele momento em que é ‘tudo ou nada’, lá estão eles sem qualquer tipo de ajuda.

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Não raras vezes, essas pessoas se endividam para ajudar aos demais. As dispensas dos outros vive abastecida, enquanto as suas se encontram vazias, pois tiveram que abastecer muita gente. Secam do próprio poço para dar de beber a quem tem sede. São os primeiros a visitar um doente acamado que permanece esquecido pelos familiares. Por noites seguidas, prontificam-se a dormir no hospital, pois os parentes não dispõem de tempo para tanto. Se preciso for, tiram do próprio guarda-roupa para agasalhar vidas alheias. Quando caem em si veem-se desnudas e, talvez, sozinhas.

Parece que esse comportamento não tem nada a ver com amor, muito menos com solidariedade. É possível que, por detrás dessa dedicação extremada, esteja um ato de desamor para consigo. Isso porque, à medida que nós nos prejudicamos para ajudar aos outros, ambos somos prejudicados, ambos somos lesados, ambos somos feridos.

Diante de uma situação tão delicada é fundamental a seguinte distinção: uma coisa é o gesto de caridade livre, incondicional e desinteressada. Outra coisa é o impulso incontrolável que, por razões outras, nos faz assistir a todos e desassistir a nós mesmos. Quando nos causamos prejuízos há de se refletir sobre as questões inconscientes que podem mover esses comportamentos disfarçados de caridade.

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Não quem cuida, mas quem o faz com excesso, deveria questionar sobre o porquê desse trabalho demasiado. Haveria aí um sentimento de solidão intensa? Sem perceber, de fato, seria a ajuda uma barganha para não termos que lidar com a própria solidão? Às vezes, a ajuda excessiva encobre uma carência silenciada. Quem corre rapidamente para acudir a todos pode estar fugindo de suas próprias dores. Além do desgaste emocional e físico, tudo isso pode resultar em: “[…] excesso de trabalho; falta de controle; falta de recompensa; falta de união; falta de equidade e conflito de valores […]” (ALVES, 2011, p. 16).

A generosidade solicita entrega, dedicação e esforço. Mas, em hipótese alguma, exige que o nosso amor-próprio seja negado. Dignidade pessoal é um bem inegociável. Para cuidar dos outros precisamos também cuidar de nós.

O ato de amar a si jamais pode ser confundido com egoísmo. Ao explicar a diferença entre o egoísmo e o amor-próprio aos meus pacientes faço-lhes recordar de um procedimento de segurança, utilizado pelas companhias aéreas antes do voo decolar. Dizem os comissários de bordo: “Em caso de despressurização máscaras individuais de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma delas para liberar o fluxo, coloque sobre o nariz e a boca, ajuste o elástico e respire normalmente, auxilie crianças ou pessoas com dificuldade somente após ter fixado a sua”. Em outras palavras: “cuide primeiro de si e, só depois, você terá condições de cuidar efetivamente dos demais”.

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O fato é que essas pessoas acabam por deseducarem os que estão à sua volta. É como se elas dissessem: ‘se recordem de mim apenas quando vocês necessitarem’. Amor maior não há do que aquele que ama aos outros, sem deixar de amar a si; que cuida das necessidades dos sofridos, sem se esquecer das próprias necessidades. Afinal de contas, como bem diz o ditado popular, saco vazio não para em pé. Não se trata de ser mal. Trata-se de ser justo. Talvez, o excesso de bondade seja uma beleza para os outros, mas uma crueldade para consigo.

Paulo Crespolini — Psicólogo — CRP 06/132391, graduado em Filosofia e pesquisador em Psicologia Analítica.

REFERÊNCIAS

ALVES, E. F. Programas e ações em qualidade de vida no trabalho: possibilidades e limites das organizações. In: Revista FAFIT / FACIC. Itararé, v. 2, n. 1, jan./jun., p. 14–25, 2011.

LENCASTRE, M. P. A. Bondade, altruísmo e cooperação. Considerações evolutivas para a educação e a ética ambiental. In: Revista Lusófona de Educação. Lisboa, n. 15, p. 113–124, 2010.