Não seja a plateia dos raivosos nem bata palmas aos estressados

Agende o seu atendimento psicológico: (11) 9 7752–7000
Imagem: Pixabay

Quanto mais uma pessoa grita, menos ouvida ela se sente. Quanto mais autoritária ela é, menos autoridade parece possuir. Quanto mais irritada fica, menos controle ela tem sobre si, sobre os outros e sobre as situações que a rodeia. Quanto maior opressão para com os demais, menor é a liberdade para consigo. Com todo o respeito aos artistas de palco é possível ponderar que os irritados e os estressados valorizam uma boa plateia. Ao perceberem que não há público também constatam que não existem razões para o espetáculo. De antemão, convém ressaltar:

Ninguém deve ficar no auditório, dando salva de palmas, assistindo ao show dos zangados. Se for para assistirmos que seja a uma apresentação devidamente organizada para essa finalidade. Ela sim merece aplausos vibrantes.

Do contrário, estaremos nos comprometendo com o adoecimento dos outros, dando vazão a sintomas que a muitos fazem sofrer, inclusive a eles próprios, os irritados. O estado emocional de estresse-irritação permanente pode apontar para uma depressão intermitente, uma ansiedade generalizada, um transtorno de conduta ou um transtorno explosivo. Somente a avaliação psicológica poderá afirmar se aquilo é uma perturbação mental propriamente dita ou se decorre de um episódio circunstancial. Ainda assim, por detrás do estresse exacerbado, da irritação descontrolada e do autoritarismo cruel pode estar alguém profundamente ferido pelas dificuldades da vida.

Imagem: Pixabay

Afinal, pessoas feridas ferem. Quem está machucado também machuca. É um engano pensar que contusões graves e fraturas expostas só existem no corpo. Adiante disso, há vivências de intenso sofrimento que se convertem em feridas psicológicas. Elas surgem no momento em que nos sentimos: afetivamente aniquilados, desprovidamente abandonados e desesperadamente solitários. Dores psíquicas precisam de duas coisas: reconhecimento e tratamento. Do contrário, existe o risco de ferirmos a muitos, lançando sobre eles feridas que, de tão nossas, somente nós podemos cicatrizá-las.

Em nível de informação, o estresse pode ser entendido como “uma resposta do organismo da qual fazem parte fatores físicos, psicológicos, mentais e hormonais […], que naquele momento representa ameaça” (MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015, p. 221). Em contrapartida, a raiva vem a ser compreendida “como um estado emocional que pode variar de mero aborrecimento ou irritação, até a fúria, sendo acompanhada por uma excitação do sistema nervoso autônomo” (MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015, p. 221).

Tanto o estresse quanto a raiva, associados à herança genética, à má nutrição e à ociosidade, dão vazão às “diversas patologias crônicas e degenerativas como câncer, obesidade e hipertensão arterial” (STRAUB, 2005 apud MOXOTÓ; MALAGRIS, 2015, p. 221).
Imagem: Pixabay

Quando o assunto do estresse ou da raiva são levantados pensa-se, de imediato, em controlá-los, uma vez que são tidos como comportamentos inaceitáveis. E eles o são de fato. Contudo, mal se percebe que, quanto mais queremos dominá-los, mais eles nos dominam. Não se trata aqui de inibir a raiva, mas, sobretudo, de não submeter-se a ela. Na verdade, trata-se de conhecê-la, ouvi-la, decifrá-la e trabalhá-la individualmente, inclusive, para deixarmos de descontá-la em quem nada tem a ver com ela.

Enquanto não tomarmos a raiva e o estresse como nossos ficaremos a mercê de ambos, lançando nas pessoas algo que nos pertence, nos diz respeito e nos compete por inteiro. Durante o tempo em que projetarmos a agressividade nos outros jamais a resolveremos em nós. Apenas nós podemos saná-la. Mais ninguém. Parece que o nervosismo é tão-somente uma casca pela qual se esconde uma pessoa sensível e frágil.

Vejamos bem, sem generalizações, como alguns mal humorados se magoam com facilidade, demonstrando um azedume constante, sem dar as razões de tanto aborrecimento. É uma zanga dali, uma grosseria daqui e uma aperreação de lá: todo santo dia.

Resta aos meus próximos ‘pisar em ovos’, na tentativa de não ofender aos estressados com os quais convive, trabalha, estuda ou se relaciona. Nunca se sabe quando a ‘panela de pressão’ vai estourar de novo. E pode ser que, dessa vez, não haja consertos.
Imagem: Pixabay
Justamente por temer a próxima explosão de raiva que alguns aceitam o primeiro grito. Sempre há a ilusão de que aquilo é algo momentâneo e passageiro. Depois de aceito, o primeiro grito se transforma em um empurrão. Mais adiante, aquele grito, convertido em empurrão, se manifesta em soco, murros e pontapés.

A agressão verbal, manifestada no abuso físico, se tornar-se visível na violência, cuja marca na alma é difícil de cicatrizar. Por outro lado, quem fica nervoso com o nervosismo do outro não está agindo por conta própria. Ao contrário, reage em função alheia. É como se, no momento do nervosismo, nos tornássemos marionetes conduzidas pela vontade de outrem.

Por isso, é tão importante resistir à raiva alheia e lutar na contramão do estresse de quem quer que seja. Cada um precisa dar conta dos próprios sentimentos. É muito cômodo lançar sobre o outro a própria raiva. Esse mecanismo faz com que não tenhamos que lidar com ela.

Imagem: Pixabay

Mais cômodo ainda é ficarmos nervosos quando questionados. Agindo assim, encerramos o assunto e o damos por findado. Dessa maneira, tudo caminha igualmente até a próxima explosão de raiva. Precisamos romper com esse ciclo. Além de nos focarmos internamente na emoção também precisamos nos focar externamente na resolução do problema, contando com a ajuda daqueles que conosco caminham. Sozinhos, corremos o sério risco de sermos tragados pela raiva ou, de outro modo, consumidos pelo estresse. Algo que não nos é justo.

Paulo Crespolini — Psicólogo — CRP 06/132391, Graduado em Filosofia e pesquisador em Psicologia Analítica.

REFERÊNCIAS

FILGUEIRAS, J. C.; HIPPERT, M. I. S. A polemica em torno do conceito de estresse. In: Psicologia: Ciência e Profissão. Brasília, v. 30, n. 4, p. 40–51, 2010.

GUIMARAES, N. M.; PASIAN, S. R. Agressividade na adolescência: experiência e expressão da raiva. In: Psicologia em Estudo. Maringá, v. 11, n. 1, p. 89–97, jan./abr., 2006.

JAMES, W. As emoções. In: Revista Latino-americana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. 11, n. 4, p. 669–674, 1980.

MOXOTÓ, G. F. A.; MALAGRIS, L. E. N. Raiva, Stress Emocional e Hipertensão: um estudo comparativo. In: Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília, v. 31, n. 2, p. 221–227, abr./jun., 2015.

REIS, A. L. P. P.; FERNANDES, S. R. P.; GOMES, A. F. Estresse e fatores psicossociais. In: Psicologia: Ciência e Profissão. Brasília, v. 19, n. 3, p. 712–725, 1999.